Raio de sol

Capítulo - 1
ADEUS



Não podia acreditar no rumo que a minha vida estava tomando. Meu nome é Liliana, tenho dezessete anos, meus amigos me chamam de Líli...amigos! A pouco tempo recebi a terrível notícia dos meus pais! Iremos mudar de volta para o Brasil! Moro em Figueira da Foz em Portugal dez de os três anos com meus pais Carlos e Ana e meu irmão mais velho, Guilherme. Meu Pai era chefe de cozinha em um grande hotel e minha mãe era professora de uma escola de ensino fundamental da região. Meu irmão tem 22 anos e estuda na Universidade Internacional da Figueira da Foz, e eu estou terminando o ensino médio. Além disso, tem uma coisa que eu amo muito. A Dança. Comecei com quatro anos e morro se parar! É a única coisa que me faz esquecer um pouco tudo o que está acontecendo! O motivo dessa mudança repentina é com certeza a crise no casamento dos meus pais. Já ouvi eles discutindo sobre a separação e logo após veio essa bomba! Eles querem ficar mais próximos da família! Essa Manhã não tinha vontade de levantar da cama, só de pensar que terei que ir embora daqui fico louca! Levantei, vesti minha blusa azul da Capezio como gesto de adeus, terminei de arrumar os últimos pacotes, achei no meio deles um álbum de fotos, nele haviam fotos de meus pais quando ainda estavam no Brasil, pareciam tão apaixonados, como tanto amor pode acabar assim? Encontrei também fotos minhas e do meu irmão de quando éramos crianças e de nossos parentes. Tudo parecia tão certo naquela época! Depois do almoço silencioso fui me despedir de meus amigos e no pôr do sol corri até a praia para ver o mar e aquela praia, pela última vez! Quando cheguei tive vontade de gritar, caí de joelhos na areia inconformada por ter que partir e deixar meus sonhos pra traz. Ouvi um barulho de moto que parou nas minhas costas.
_ Vai perder o vôo!_ Disse o meu irmão com lágrimas nos olhos e o meu capacete na mão.
Corri o mais rápido que pude e me atirei no abraço dele.
_Isso não é justo! Como vou ficar todo esse tempo sem você? Quem é que vai me defender e conversar comigo quando o pai e a mãe estiverem brigando?
_Calma! Faltam só três meses para eu terminar o semestre na faculdade! Vou praticamente atrás de vocês! Você sabe que eu nunca vou te deixar!
Foi Aí que eu lembrei que isso seria muito mais difícil pra ele. Ele estava namorando com a Jéssica já fazia um ano e meio! Nunca o vi gostar tanto de alguém assim! E agora ele teria que jogar tudo pro alto! Ele poderia ficar, mas também não deixaria minha família e eu.
_E a Jéssica? Eu perguntei com a cabeça baixa. Percebi que ele começou a tremer.
_Temos só três meses pra ficarmos juntos! Depois é adeus pra sempre! Adeus pra única garota que eu amei!
_Eu sinto muito! Disse olhando em seus olhos agora.
_Tá legal! Chega de drama! Você vai acabar perdendo o avião e o pai vai me matar! Ele bagunçou o meu cabelo me dando o capacete.



Capítulo - 2 
Lugar novo!




No avião comecei a tentar lembrar dos rostos dos parentes, só o que eu lembrava era o que via nas fotos. De repente outro medo começou a me incomodar. Como eram as pessoas lá? Será que eram como eu? Bom, eu vim de lá e tinha os cabelos loiro escuros, olhos castanhos claro, um metro e cinqüenta e sete de altura não era gorda mas também não era um palito! Meus pais também eram normais então acho que é mais ou menos por aí!
No Caminho meus pais discutiram umas duas vezes sobre a minha nova escola, sobre como o meu pai era irritante comendo e como a minha mãe não parava de falar. Coloquei os fones de ouvido e não os tirei até que chegasse no aeroporto. Comecei a passar as estações impacientemente e com raiva. Então uma música em alguma estação me chamou a atenção, a letra dizia “eu e minha casa serviremos a Deus, eu e minha casa serviremos a Deus, com alegria”. Achei a canção linda, porém não entendia muito menos acreditava no que ela passava. De repente estávamos pousando em Porto Alegre, minha cidade natal. Isso era tão errado! Lá não era a minha cidade!
Meu tio João veio nos buscar de carro, ele abraçou forte os meus pais e me abraçou dizendo que eu tinha esticado. Chegamos em nossa nova residência. A casa era bonita. Era um sobrado amarelo claro, tinha um jardim na frente e o portão de ferro branco. Ela tinha um ar de tranqüilidade, assim como a rua, o que me fez sentir um pouco melhor. Era um Sábado de junho e fazia frio ali. Eu estranhei porque quando saí “de casa” a estação era contraria e fazia muito calor.
Entrei pela porta branca e me deparei com a sala ainda esperando pelas nossas coisas que só chegariam na próxima semana. Subi as escadas com a minha mochila enquanto meus pais conversavam com meu tio. Lá em cima de frente para a escada havia um quarto grande que achei que seria apropriado para os meus pais, á direita um corredor largo com mais um quarto, mais na frente um banheiro e na ponta do corredor definitivamente o quarto que seria meu. Ele tinha uma janela grande que dava para a frente de casa. Do lado da janela havia uma árvore do jardim que poderia ser escalada facilmente, me deu vontade de descer por ela, mas se alguém visse iria achar que eu sou louca, então decidi esquecer. Joguei minha mochila na cama e pensei no que ia fazer no quarto para ele ficar com a minha cara. Ele precisava de um toque meu e de uma barra para alongar sem dúvida. Tirei minhas sapatilhas do bolso de fora da mochila, não poderia deixá-las pra vir depois, elas tinham que me acompanhar. Apertei-as forte no peito lembrando da minha casa, do meu quarto,dos meus amigos, do meu irmão. Meu irmão! Imediatamente desci as escadas correndo, peguei a bolsa do meu note book, tropecei num degrau, levei uma advertência do meu pai por correr na escada, e estava no meu quarto de novo. Liguei ele conectei a internet e esperei que funcionasse. Funcionou. Entrei no MSN e procurei por meu irmão e ele estava online.

_E AÍ MANINHO! COMO ESTÃO AS COISAS POR AÍ SEM MIM? Perguntei.
_MELHOR IMPOSSIVEL! Ele respondeu brincando._COMO FOI A VIAGEM?
_ATÉ PARECE QUE VOCÊ NÃO SABE! A MÃE E O PAI DISCUTINDO O TEMPO INTEIRO!
_ISSO É MAU! E A CASA?
_POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, EU GOSTEI! O TEU QUARTO TE ESPERA!
Um longo minuto se passou até que ele respondesse.
_LÍLI. OLHA SÓ. NÃO CONTA NADA DISSO PARA OS NOSSOS PAIS AGORA. ACHO QUE NÃO VOU PRA AÍ TÃO CEDO. NÃO VOU DEIXAR A JÉSSICA!
_OOOOQUEEEEE????? NÃO! VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO COMIGO! NÃO PODE ME DEIXAR AQUI SOZINHA!
_LÍLI TENTA ENTENDER! O MEU DESTINO É AQUI COM ELA!
_MAS VOCÊ DISSE QUE NUNCA IA ME DEIXAR!
Eu desliguei o computador com tudo, desci até o meio da escada com o intuito de contar tudo. Mas aí ouvi meus pais na cozinha brigando de novo! Voltei para o meu quarto desolada, me sentindo sozinha em um lugar estranho, muito longe de casa. Fechei a porta pra não ouvir nada, joguei a mochila no chão deitei na cama e apertei um travesseiro nos ouvidos. O choro não parava. Minha vida estava horrível. Queria fazer algo mas não tinha forças, fui perdendo a consciência mas a lágrimas continuaram.
Acordei com a luz no meu rosto que ainda estava molhado. Será que eu passei a noite chorando? Alguém havia me coberto com um cobertor e tirado meus tênis. Provavelmente minha mãe. Procurei pelo meu celular ainda grogue. Eram nove e meia da manhã.Levantei, joguei todas as poucas roupas que tinha levado na cama, coloquei uma calça jeans, um moletom branco e meus tênis de volta. Fui até o banheiro e me olhei no espelho. Eu estava um trapo. Joguei água no rosto, penteei meus cabelos e escovei os dentes. Continuei olhando para o espelho decidindo se teria coragem de descer. Eu não tinha escolha. Cheguei na cozinha e minha mãe estava ajeitando a despensa e o café estava na mesa.
_Achei que não ia acordar dorminhoca, bom dia! Ela veio até mim e me deu um abraço._Não se preocupe, vai dar tudo certo!
Engoli o choro que estava prestes a voltar.
_Bom dia mãe! Cadê o pai?
_Ele foi no Supermercado, ainda falta algumas coisas em casa.
A palavra “casa” soou estranho pra mim de novo.
Meu pai estava muito ausente ultimamente. Ele fez alguns contatos e já conseguiu emprego no hotel que trabalhava antes de ir embora, isso foi fácil pra ele. Já a minha mãe ainda não tinha emprego em mente.
_Acabei de ligar para o seu irmão! Ela disse entusiasmada.
_É? Como ele está? Eu perguntei torcendo pra que ele não tivesse dito que falei com ele na noite passada.
_Ele está bem! Disse que já está morrendo de saudades!
Que cafajeste! Como ele pode enganar a mãe desse jeito, depois daquela decisão estúpida!
Após tomar o meu café minha mãe me deu a idéia de andar pelo bairro para ver se me acostumava e conhecia a região. Eu fui né, qualquer coisa pra não ficar angustiada naquela casa de novo.
Fui andando pela minha rua, ela parecia mais divertida essa manhã. Crianças andavam de bicicleta e pulavam corda na calçada. Um casal de idosos passou por mim de braços dados e me deu bom dia. No fim da rua havia uma praça parecida com um pequeno bosque. Tinha muitas árvores, bancos, um pequeno laguinho com tartarugas e uma ponte e um play ground. Sentei em um dos balanços e fechei os olhos. Tentei imaginar que estava em Figueira da Foz. Não era a mesma coisa. Tudo o que eu queria agora era um lugar onde ninguém me visse pra eu poder dançar, esquecer de tudo por um momento. Senti algo batendo em minhas pernas.
_Desculpa aí moça! Um menino gritou vindo pegar a bola que caiu em mim.
_Não foi nada! Eu respondi.
_Você fala esquisito! Ele me disse.
_É que eu não sou daqui! Ou sou? Bem, no momento não sei! Ainda não decidi!
O menino ficou olhando pra mim sem entender nada. Ele começou a rir e voltou a brincar com os outros. Eu fiquei lá por um bom tempo pensando como seria bom ser criança de novo e não ter que me preocupar com nada.
Quando me toquei no horário já estava tarde, já estava quase passando o horário do almoço. Voltei pra casa quase correndo e consegui chegar antes que a comida estivesse pronta. Minha mãe ainda estava na cozinha.
_E então? Como foi o passeio?
_Interessante!
Olhei para a sala e vi o meu pai sentado no sofá olhando TV.
_Não quis cozinhar hoje pai?
_Oi Líli! Não te vi esta manhã! Vou tirar uma folga da cozinha hoje! O que achou da casa?
_É bonita pai! Eu estava pensando, será que tem como colocar uma barra no meu quarto?
_Pra que isso filha? Achei que iria parar com essa bobagem!
_Por favor pai! Não tire isso de mim! Isso não!
Alguma coisa pareceu pesar na sua consciência.
_Tudo bem! Eu coloco pra você!
_Obrigada pai!
_Ansiosa pela escola amanhã?
Meu Deus! Eu não tinha pensado nisso! Novo país, nova escola, novos colegas! Gelei na hora!
_Vou levar você antes de ir para o trabalho para te mostrar o caminho!
_O Almoço está na mesa! Minha mãe gritou da cozinha!
Uma bomba antes de comer, o suficiente para acabar com o meu apetite.
A tarde passou rápido. Rápido também voltou a minha dor. Não tive coragem de ligar o computador e falar com o meu irmão. As lágrimas voltaram, menos intensas mas continuas.




Capítulo - 3
Escola nova!


Meu celular despertou as seis horas, mais cedo do que deveria. Não tinha certeza do que usar no meu primeiro dia de aula. Como não estava muito frio hoje, vesti uma básica rosa sobre uma camiseta de mangas longas, calça jeans e meu All Star branco. Sim,essa roupa era apropriada. Deixei o cabelo solto, tomei meu café correndo, peguei minha mochila da aula e fui com meu pai. Demorou uns quinze minutos pra chegar na escola. Ela era grande, tinha um muro em redor com frases escritas pelos alunos, o que achei muito interessante. Meu pai estacionou na frente e me acompanhou até a secretaria. Recebi um papel o qual deveria mostrar para os professores quando fizessem a chamada. Enquanto estava lá o sinal tocou e os alunos enlouquecidos começaram a correr para suas salas.
_você vai ficar bem? Meu pai perguntou.
_Eu acho que vou sobreviver! Respondi fazendo um biquinho.
Ele me deu um abraço e um beijo na testa
_Você vai se dar bem, eu tenho certeza!
Fiquei olhando ele chegar no fim do corredor e virar à direita. Me virei para continuar e pra me ajudar bati em alguém que estava vindo pelo corredor deixando cair os livros que ele carregava, minha mochila e o meu papel.
_Liliana Gonçalves? Disse o rapaz quando se abaixou para pegar o material e o meu papel. Definitivamente o cara mais bonito que eu vi dez de que cheguei no continente. Ele tinha cabelos e olhos castanhos, um pouco menos de um metro e oitenta de altura, e um sorriso sincero.
_hã...Fiquei olhando pra ele como uma tonta!
_Aluna nova?
_É...sim...desculpe, tive um devaneio!
Rapidamente ele pegou as coisas dele, devolveu as minhas, e saiu apressado virando o corredor na direção oposta que meu pai havia ido.
_Tome cuidado com os devaneios garota portuguesa! Ah...e seja bem vinda! Ele disse com outro sorriso. Tudo tão rápido que cheguei a ficar tonta.
Peguei o meu papel e procurei a minha sala. Quando cheguei na porta fui empurrada por alguns apressados querendo se sentar. Avistei um único lugar vago ao lado de uma garota no canto da parede esquerda. Ela tinha cabelos escuros com cachos grande e perfeitos nas pontas que iam até a cintura como os meus, sua pele era clara e tinha olhos verdes.
_Posso sentar aqui? Ou esse lugar já é de alguém?
_Não, Você pode sentar! O menino que estava aí foi transferido na semana passada!
Imediatamente me sentei, envergonhada por ser a única em pé.
O professor entrou na sala, muito animado e brincando com a turma. Só tinha um problema. A aula era de física, eu simplesmente não entendo. Na hora da chamada levei o papel que me deram na secretaria para o professor.
_Ora, Ora! Temos uma aluna nova! Seja bem vinda senhorita Liliana!
Pelo menos o professor fazia a aula mais divertida. Na troca do período a garota do meu lado me chamou.
_Oi! O teu nome é Liliana né? O Meu é Letícia! De onde você vem?
_Sim, eu vim de Portugal. Na verdade eu sou daqui, mais fui pra lá com meus pais quando tinha três anos, então não conheço nada aqui!
_Que Legal!_Ela disse empolgada logo mudando a expressão para apavorada. _Não, eu não quis dizer legal sobre você não conhecer nada. Quero dizer que é legal você ter morado em Portugal! Porque Portugal é fora do país!
Eu não agüentei e comecei a rir do jeito dela.
_Sim, eu entendo. _Era a primeira vez que eu sorria em muito tempo. Eu senti uma grande amizade a caminho.
Quando o sinal do intervalo tocou já tínhamos conversado e gargalhado algumas vezes, o professor chamou nossa atenção umas duas, ou mais. Parecia que já nos conhecíamos a bastante tempo. Ela puxou o meu braço, eu peguei minha coisas meio desengonçada e ela saiu me arrastando pelo corredor.
_Onde você está me levando?
_Vou te apresentar os meus amigos!
_Eles são todos maluquinhos como você?
_Um pouco!_Ela olhou pra mim pulando e fazendo careta.
_Isso é inacreditável! Onde eu vim parar?_Eu disse rindo.
Paramos em uma espécie de pracinha que tinha bem no meio da escola que eu não tinha visto antes, ela era rodeada pelo prédio da escola e tinha uma árvore grande bem no meio que fazia sombra em todo o pátio. Um pessoal estava rindo alto e brincando, alguns sentados num dos bancos.
_Líli, esses são meus amigos!
Ela foi me apontando e dando um pequeno relatório sobre cada um.
_Esse é o Matheus, dezesseis anos, 2º ano. Mariana, quinze, 1º ano. Lucas e Renan, gêmeos, dezessete anos, 3º ano. Júlia, minha irmãzinha, quatorze anos, 8ª série. E por ultimo meu mano Miguel, dezenove anos, 3º ano.
Levei um choque. Miguel era o garoto com quem esbarrei no corredor.
_Já nos esbarramos antes. _Ele disse sorrindo pra mim.
_Oi. _Eu disse pra ele. _Muito prazer em conhecer vocês._virei para os outros.
_Desculpe o jeito impulsivo da minha irmã. _Miguel disse olhando de canto pra ela.
_É! É que a pilha dela não acaba!_Falaram os gêmeos sacudindo a cabeça dela.
Todos eles pareciam realmente felizes. Brincavam o tempo todo mas não eram brincadeiras idiotas. Eles tinham respeito um pelo outro. Me deu uma pontada de inveja quando lembrei de todos os meus problemas. Eu também queria ser feliz assim. Matheus tinha a pele morena, era magro, estava sempre com fones no ouvido e fazendo movimentos como se tivesse tocando bateria. A Mariana era loira, tinha olhos castanhos e estava com alguns livros que não consegui identificar. Lucas e Renan eram muitíssimo parecidos, se não fosse pela pintinha que o Renan tem na bochecha direita seria difícil saber qual é qual. Eles eram os mais divertidos. A Júlia era bem pequena para a idade e parecida com a Letícia só que seus cabelos eram lisos. Me surpreendi por Miguel ter dezenove anos e ainda estar no ensino médio, será que ele repetiu de ano? Ele não tinha cara de quem não gosta de estudar. Pelo contrário, parecia super inteligente. Fiquei com vergonha de perguntar se ele tinha repetido.
O resto da manhã passou rápido. Na saída me despedi de meus novos amigos com um pouco de tristeza em ter que ir embora. Incrível. Eu estava desanimada em ter que sair da escola? Não. Eu estava triste por ter que voltar pra casa. Na escola, com essas pessoas, me sentia bem. Era um bem estar diferente do que eu sentia com meus antigos amigos, estes não ligam para o que os outros pensam sobre eles e são totalmente felizes como são, cada um diferente.
Memorizei o caminho quando vinha pra escola e ia seguindo o mesmo trajeto quando fui surpreendida.
_Líli!
Virei para traz e Miguel estava correndo em minha direção.
_Você sabe voltar pra casa sozinha?
_É...eu acho que sim...
_Você precisa de ajuda pra achar o caminho? Estamos de carro se você quiser uma carona.
_Eu não sei...
_Fica pelo mesmo caminho.
_Eu acho que vou aceitar a carona...
_Então vamos!_Ele disse entusiasmado.
Caminhamos um pouco até o carro, era um gol preto. Letícia estava no carona e Júlia atrás.
_Oba, você vai com a gente!
_Parece que sim._Eu disse sem jeito. Miguel abriu a porta pra mim e eu entrei.
_Onde você mora?_Ele perguntou.
Eu lhe dei um papelzinho que eu carregava com o endereço.
_Não acredito! Você é nossa vizinha!
_Sério?_Falamos praticamente juntas.
_É...sua casa fica na mesma rua da nossa. Só que umas quatro quadras depois.
_É, eu percebi que a rua era bem comprida.
_Que legal podemos vir todos os dias juntos pra aula. A Julia Falou.
_Posso te pegar todos os dias se quiser. Miguel deu de ombros.
_Ok! Se não for incomodo._Eu estava muito feliz com isso.
Fomos conversando até em casa.
_Vocês querem entrar?_Eu perguntei por educação.
_Não, obrigado. Nossa mãe está nos esperando. Outra hora a gente aceita o convite.
_Então ta! Tchau!
_Tchau Líliiiii!!! As meninas gritaram deixando o Miguel surdo.
_Tchau!_Ele me disse fazendo uma careta.
Eu ri e me virei enquanto ele arrancava o carro. Entrei no portão pensando em como a minha manhã tinha sido boa apesar de tudo novo e diferente.




Capítulo - 4
Organizando a bagunça

Quando cheguei na metade do pátio pude ouvir um barulho de furadeira na parte de cima da casa. Abri a porta e minha mãe estava arrastando uma caixa enorme na sala.
_Ué! As nossas coisas já vieram?
_Sim vieram antes. Ainda bem._Minha mãe disse com cara de cansada, parando e colocando as mãos na cintura. Parecia que ela não sabia por onde começar.
_Cadê o meu pai?
_Lá em cima._Ela fez um gesto com a cabeça.
_Fazendo o que com a furadeira?
_Vai lá ver.
Subi a escada correndo. O som vinha do meu quarto. Meu pai estava instalando a barra que eu pedi no canto da parede esquerda.
_Uau, Pai! Não achei que você iria instala-la tão rápido. Muito obrigada!
Ele levantou a cabeça meio assustado porque não me viu entrando.
_É, eu aproveitei a bagunça que a sua mãe está fazendo pra reorganizar as coisas.
_Você não deveria estar trabalhando?_Eu perguntei.
_Vou começar amanhã. E você não deveria estar na escola?
_Pai, já passou do meio-dia.
_O que? Fiquei entretido com isso aqui e não vi a hora passar. Acho que sua mãe também não se ligou.
_E o que vamos almoçar?
_Acho que o jeito é pedir alguma coisa. A cozinha também está uma bagunça!
_Tá, eu vou lá pra baixo e vejo com a mãe.
_Ok, eu vou terminar isso aqui.
Larguei a mochila e desci.
Passamos o resto do dia abrindo as caixas, arrumando as coisas, e limpando a casa. Meus pais não disseram nenhuma palavra um ao outro durante todo esse tempo e eu virei meio que um pombo correio. A noite estava tudo arrumado e podemos nos sentar e apreciar nosso trabalho, a sala ficou muito bonita e organizada com nossas coisas e retratos, porém nenhum deles juntos. O quarto deles ficou lindo com paredes de um tom claro, o que seria do Guilherme também. Entrei para olha-lo e percebi que meu pai havia colocado algumas coisas dele lá, achei isso estranho, essa coisa estava indo longe demais? A ponto de dormirem separados? Entrei no meu quarto batendo o ombro na porta, isso me fez acordar dos meus pensamentos, me surpreendi. O quarto estava muito bonito, pintamos as paredes de azul claro, decorei-o com fotos, usei uma tática de colocar fotos dos meus pais juntos, assim se eles vissem iriam se sensibilizar (ta, eu sei! o pensamento foi infantil. Mas eu tinha que tentar algo). A minha barra estava instalada e apesar do cansaço não pude me conter, coloquei minhas sapatilhas e liguei meu som que estava na cômoda. Comecei um exercício de plié e alguns alongamentos na barra, foi como se eu tivesse entrado dentro da música, foi tudo muito bem até meu momento feliz ser interrompido por uma porta batendo muito forte do quarto que meu pai entrou. Definitivamente não tinha paz em casa. As discussões viraram motivo para as portas (de tudo aquilo que tem porta) batendo. Desisti de dançar e fui tomar banho. Voltei para o meu quarto, vesti meu pijama decidida a ir dormir, deitei na cama e o telefone começou a tocar. Ouvi minha mãe atender.
_Alô?
_Sim, está. Quem gostaria?
_Só um pouquinho...Lííííli!
_Que mãe?
_Telefone pra você!
_Ué? Quem será?
_É uma menina.
Peguei o telefone no meio da escada.
_Alô?
_Oi Líli! Você estava dormindo? Desculpa, eu não queria te acordar! Só queria saber se podemos te pegar pra ir pra aula amanhã! Há é a Letícia!
Como se eu não tivesse a reconhecido pelo jeito elétrico de falar. Tinha dado o número de casa para eles depois da aula.
_Sim. Se não se importarem podem passar sim._Eu falei rindo.
_Ok! Até amanhã então! Boa noite!
_Boa n..._antes que eu pudesse terminar o telefone estava mudo. Essa garota era realmente maluquinha.
_Quem era? Minha mãe perguntou.
_Uma colega. Vão me dar carona pra escola.
_Uau! Já fez amigos? Nem perguntei como foi seu dia na nova escola. Estive tão atordoada hoje._Fomos subindo a escada juntas.
_Por incrível que pareça eu fiz amigos. Tem essa menina, a Letícia, seus irmãos Miguel e Julia e uns amigos deles. Foram muito legais comigo.
_Estou muitíssimo feliz com isso._Ela me deu um abraço._Agora vai dormir porque já esta tarde e depois você não acorda.
_Ta mãe. Boa noite.
_Boa noite.

Deitei de volta na cama, peguei meu mp3 que estava no criado mudo e liguei na primeira música que apareceu, estava tocando qualquer música de Tchaikovsky que não consegui prestar atenção porque logo caí em um sono muito profundo.







Capítulo 5
Pesadelo



Estava em uma floresta escura, não podia ver quase nada. Sabia que havia algo atrás de mim e corri o mais rápido que pude, mas não era o suficiente. O que estava me perseguindo queria me matar. Eu caía e me levantava enquanto aquela figura horrenda me jogava para todos os lados, quanto mais eu tentava fugir mais furiosa a criatura ficava. Avistei ao longo da escuridão uma luz e pude ver duas figuras brilhando e me chamando pra junto deles, ao focar os olhos nos seres que estavam cintilando percebi que eram meus novos amigos, Letícia e Miguel. Me joguei na direção deles porem as sombras que me rodeavam iam me puxando para o fundo. Um berro de desespero rasgou o silêncio da casa naquela noite. Eu estava sentada na cama com os olhos arregalados, a luz ascendeu e percebi que meus pais entraram olhando aterrorizados pra mim. Abracei a minha mãe o mais forte que pude pra ter certeza de que era real, enquanto o meu pai corria para a janela.
_O que aconteceu? Era um ladrão?_Meu pai perguntou sem tirar os olhos lá de fora.
_Foi um pesadelo filha?_Minha mãe estava com as mãos no meu rosto.
_Foi horrível!_Eu disse soluçando._Eu achei que ia morrer!
_Ah, Foi só um sonho ruim. Não precisa chorar desse jeito.
_Foi muito real pai!
_O que era?
_Algo estava atrás de mim e me batendo. Eu não quero voltar a dormir.
_Venha para o meu quarto._Minha mãe e eu fomos para o quarto dela enquanto o meu pai entrava no outro.
_Chamem se precisarem de mim._Meu pai avisou.
Dormi muito mal naquela noite, não sonhei de novo mas a lembrança do sonho me perseguia. Pela manhã minha mãe me chamou, eu levantei me sentindo horrivelmente cansada. Comi o café da manhã sem muita vontade, peguei as minhas coisas e fui para a porta esperar. Meu pai se despediu e saiu antes de mim. Sentei com a cabeça nos joelhos quando ouvi uma buzina. Caminhei até o carro quase sem abrir os olhos.
_Nossa Líli! O que aconteceu?
Ouvi a voz que deveria ser de Letícia. Olhei pra eles e meu sonho veio a tona. Os três estavam olhando pra mim assustados.
_O que?_Eu disse entrando no carro.
_Você está parecendo um zumbi. O que aconteceu?_Miguel estava olhado para mim super preocupado.
_Eu tive um pesadelo.
_Só um pesadelo e você fica nesse estado?_Júlia disse ao meu lado.
_É que foi horrível e eu não consegui dormir direito.
_E como foi?_Miguel se virou pra mim.
_Eu estava em uma floresta muito escura. Tinha alguma coisa me perseguindo, a coisa me batia e me jogava. Eu corria mas não conseguia fugir. Aí eu vi vocês..._Eles se surpreenderam com a minha declaração._Corri até vocês mas algo me puxou e eu acordei.
_Uaaaauu!_A Julia estava com os olhos arregalados.
_Isso, com certeza, quer dizer alguma coisa._Letícia olhou para Miguel.
Os dois trocaram um longo olhar como se tivessem entendido tudo o que o outro estava pensando.
_Temos algo muito importante pra compartilhar com você Líli._Miguel me disse arrancando o carro.
_O que? Vocês são algum tipo de seita, clã, sociedade secreta?
Eles começaram a gargalhar.
_Quem sabe?!_Miguel me deu ou olhar meio de lado._Porque você não almoça lá em casa hoje? Aí a gente conta o nosso mistério._Ele sorriu no final.
_É Líli! Almoça lá em casa._Letícia estava super empolgada com a idéia.
_Tenho que pedir pra minha mãe.
_Ok, então se ela deixar você vai?
_Sim, acho que sim.
A aula foi tranqüila, porém eu estava muito cansada e com sono. O “almoço” não saía da minha cabeça. Afinal, o que eles tinham de tão importante pra me contar? E o que tudo isso tinha a ver com o meu sonho? Estava cada vez mais preocupada até que o sinal da saída tocou.
_Vamos!_Letícia já estava com todo o material guardado e se levantou pra me esperar. Eu peguei as minhas coisas sem a menor pressa e me levantei também. Como já era de se esperar ela me puxou pelo braço e eu fui arrastada pelo corredor.
_Você não perde nunca essa mania?
_Que mania?
_De me arrastar.
_É que eu gosto de ajudar os que não são tão rápidos quanto eu._Ela declarou.
_Claro. Muito gentil de sua parte.
Chegamos no carro.
_O que houve? Que cara de assustada é essa?_Perguntou Miguel ao me ver.
_É que eu não sei o que vocês vão fazer comigo._Eles apenas riram outra vez.
Entramos no carro e seguimos até a minha casa, descemos para pedir à minha mãe para ir até a casa deles.
_Mãe!_Eu chamei abrindo a porta._Entrem.
_Oi Líli.
_Esses são meus amigos Letícia, Miguel e Julia._Ela abraçou cada um.
_Posso almoçar na casa deles?
_Nós traremos ela de volta. Não se preocupe._Miguel estava com um ar sério e totalmente confiável.
_Ok então. Pode ir, só não volte muito tarde. Nós duas vamos até a casa da sua tia Maria, é aniversário dela e ela quer nos rever.
_Tá mãe.
_Muito prazer em conhecer a senhora._Eles disseram ao sair.
Voltamos para o carro e o caminho até a casa deles foi rápido. Era uma casa verde grande assim como o pátio. Havia uma criança de uns dois anos brincando na frente, ela tinha os cabelos castanhos, curto e cheio de cachinhos. Era muito fofa. Entramos pelo portão e ela veio correndo.
_Tio Mig!
Eu olhei pra ele.
_Tio Mig?
_É aqui em casa todos me chamam assim._Ele disse levantado os ombros como se tivesse que se conformar.
_Gostei._eu disse rindo.
Ele pegou a menina no colo com o maior jeito de tio coruja e deu um beijo na bochecha dela.
_Minha princesinha. O que você está fazendo?
_To brincando.
_Hum, que legal. Líli essa é minha sobrinha Alice, filha do meu irmão mais velho, Rafael. Minha mãe cuida dela as vezes. Diz oi._Ele disse no ouvido dela.
_Oi._Ela disse pra mim
_Oi, você é muito linda sabia?
_Sabia._Ela respondeu e todos riram.
Nós entramos. A casa era limpa e organizada. A mãe deles veio nos receber, ela aparentava uns cinqüenta anos, tinha os cabelos como os da Letícia e também tinha os olhos verdes, deveria ser muito linda quando mais jovem.
_Essa é a nossa mãe, Lucia.
_Ah minha querida! Seja bem vinda._Ela veio e me deu um abraço apertado que lembrou o da minha mãe._Os meus filhos não tem falado de outra coisa desde ontem. Parece que você os conquistou._Fiquei imaginando, como eu posso ter os conquistado? Eu? Tão sem graça e em tão pouco tempo. Eles é que me conquistaram, afinal eu me sentia maravilhosamente bem com eles.
_Eles foram muito legais comigo desde que cheguei na escola.
_Vamos entrando, vocês devem estar com fome._Ela pegou Alice do colo do Miguel.
O almoço foi muito alegre, antes todos fizeram uma oração. Isso descartou a hipótese de eles serem algum clã maligno. A comida estava maravilhosa e todos se tratavam com carinho e respeito.
_O que você está achando do Brasil Líli? Dona Ana perguntou.
_Eu não conheci muita coisa ainda só vou de casa pra escola.
_Hum...Então um pessoalzinho aqui tem uma missão a cumprir.
_O que vocês acham de sairmos para apresentar a cidade pra Líli? A Laura falou.
_Tenho que trabalhar. Por que a gente não faz isso no fim de semana? Miguel disse empolgado com a idéia.
_Ok. No domingo pode ser Líli? Letícia virou pra mim quase caindo da cadeira.

_Acho que sim. Eu quero conhecer a cidade._Isso parecia perfeito pra mim.








Capítulo - 6
A verdade

Depois do almoço nós subimos para o quarto das meninas, Miguel foi junto. Elas disseram que ele poderia entrar já que o assunto era muito importante. Eu estava muito curiosa, afinal o que poderia ser tão especial? Letícia sentou na cama, eu sentei ao lado dela, Miguel na cadeira e Júlia no puf.
_E daí? O que está acontecendo aqui?
_Queremos te apresentar alguém._Miguel disse.
_Quem?_Eu olhei em volta.
_Jesus!_ Letícia falou muito empolgada.
_Hã?_Eu deixei escapar sem entender.
_Queremos te apresentar Jesus Líli._Miguel falou totalmente confiante.
_A ta, to entendendo vocês são de igreja?_Eles começaram a gargalhar e eu fiquei me perguntando o eu falei de errado.
_Sim Líli, nós somos da igreja._Miguel olhou pra mim rindo.
_Queremos te apresentar Jesus porque temos certeza de que ele pode te ajudar._A Júlia disse com convicção.
_Não sabemos o que você está passando mas Ele sabe e não importa o que seja Ele pode te ajudar se você permitir.
_Se eu permitir?_Eu estava totalmente perdida._Gente eu não to entendendo! Como assim?
_Vamos te explicar desde o começo._Letícia me falou
_Por favor._Eu pedi.
_Muito bem._Começou o Miguel._Você sabe que Deus criou todas as coisas e tudo mais né?
_Sim eu sei.
_Ta, também sabe que Ele criou o homem, ou mulher, a sua imagem e semelhança.
_Hum.
_Deus fez o homem para viver eternamente. Sem morte, tristeza, enfim tudo o que é ruim. Mas, um dia o homem acabou desobedecendo a Deus. Ele pecou, escolheu seguir sozinho e se tornar auto-suficiente. Ocasionalmente a morte, a dor, a tristeza, e mais pecado vieram para sua descendência. Ele teve que trabalhar para poder viver. Antes Deus o sustentava, e ainda poderia nos sustentar se não fosse pelo pecado. Então Deus teve um plano. Por amar demais todos nós ele mandou seu único filho, Jesus, para que morresse pela gente e pagasse por todos os nossos erros. Assim quem crê que Jesus nos salvou, e o aceita como único caminho para salvação e felicidade, tem a vida eterna em um lugar maravilhoso que ele está preparando para nós escolhidos.
_Uau!_Fiquei olhando pra ele._Isso é real mesmo?
_Claro Líli. Tão real quanto você está sentada na minha frente com essa cara abobalhada!_A Letícia soltou essa e todos começamos a rir.
_Olha Líli._A Júlia veio até mim com uma bíblia aberta._Aqui diz que Deus amou o homem de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê, não pereça mas tenha a vida eterna. Se Você acreditar nele você também pode ter vida eterna e ele poderá cuidar de você aqui.
_Eu nunca tive certeza se Ele existia. Ele nunca fez nada de bom pra mim.
_Como você pode dizer isso?_Miguel falou._Só o fato de você existir e poder estar conosco aqui hoje já é algo bem considerável. O importante agora é que você já conhece a verdade. Você pode deixar que Jesus cuide de você daqui pra frente, se acha que ele nunca fez nada por você é porque você mesma não permitiu. Não conhecia ou não quis saber da verdade.
_Eu não sei, como vocês sabiam que eu estava com problemas? É tão visível assim?
_Todos que não tem Jesus no coração estão com sérios problemas._Disse Letícia._Na verdade o maior problema que pode existir.
_Se você quiser desabafar pode compartilhar com a gente. As vezes guardamos sentimentos ruins que nos corroem por dentro querendo sair pra fora, e quanto mais prendemos isso mais nos machucamos. Por isso que Deus deixou o Espírito Santo.
_Hã?_Eu disse pra Júlia sem entender esse negócio de Espírito Santo.
_É assim. Quando Jesus morreu por nós ele ressuscitou e venceu a morte, como só ele poderia fazer. Ele voltou para o céu com Deus, mas não nos deixou sozinhos, deixou aqui o Espírito Santo que é o nosso consolador. Quem aceita Jesus tem intimidade com o Espírito Santo. Para Ele você pode contar todas as suas dores, as suas angustias, ele sempre vai estar lá pra te consolar e dar força pra continuar. Ele também nos avisa quando estamos fazendo algo que desagrada a Deus. É como se ele fosse um alarme que nos diz: Péra aê! Não vai por aí, você pode se machucar. Como se fosse um GPS nos mostrando o caminho certo se pararmos e analisarmos. Alguns chamam de consciência, mas nos sabemos a verdade. É por isso que existem, por exemplo, pessoas que tiram a vida de outras. Na verdade ela não tem consciência do que está fazendo, porque se uma pessoa não tem Jesus acaba sendo escrava do nosso inimigo que é o diabo, ele veio pra matar, roubar e destruir. Assim não tem Espírito Santo na sua vida para lhe dar a direção. Você entende?
_Acho que sim. Mas ainda não sei. Eu nunca tive uma prova concreta de que Deus existe.
_Líli, eu vou te contar algo que aconteceu comigo. Talvez possa te ajudar._Miguel falou se inclinando pra mim._Quando eu tinha nove anos fiquei muito doente, os médicos constataram que eu tinha leucemia. Passei dois anos da minha vida praticamente sem viver. Eu estava apenas sobrevivendo. Ficava quase sempre no hospital porque o meu quadro foi piorando cada vez mais, isso fez com que eu perdesse esses anos na escola. Meus pais estavam cansados, meus irmãos também. Ninguém tinha paciência e qualquer coisa era motivo para discussão. Então teve um dia, 14 de julho pra ser mais exato, tenho relances de que era um dia nublado e muito frio, eu fiquei muito mal. Me levaram para o hospital as pressas, minha pulsação estava ficando muito fraca e fizeram de tudo  para que eu voltasse, mas foi tudo em vão. As dezenove horas daquele dia eles declararam o meu óbito. Mas meus pais não se conformaram. Eles abraçaram forte o meu corpo e pediram aos prantos para que Deus me trouxesse de volta à vida. Eles disseram que se Deus os amava realmente, que não me tirassem deles. Que eles viveriam para Deus e que o amariam para sempre. Nesse momento eu respirei muito fundo. Líli, Deus soprou de novo em mim o fôlego de vida. Eu revivi, pra glória dEle. Eu melhorei a cada dia até estar totalmente curado. Minha família também estava restaurada e a alegria estava lá como nunca antes. Alguns médicos disseram que esse tipo de coisa acontece, que o óbito pode ter sido declarado quando na verdade eu não morri. Mas eu acredito que Deus usou toda essa situação para que a minha família se rendesse a ele. Hoje sou grato a Deus porque ele me salvou duas vezes, na cruz e quando eu estava doente. Você entende agora Líli? Entende porque toda a nossa fé em Deus? Entende porque somos felizes? Porque não importa o que aconteça sabemos que Deus está no controle das nossas vidas. E que independente de vida ou morte, se deixarmos ele agir em nós, o fim sempre será perfeito. Porque a vontade dele é perfeita.
Quando ele terminou de falar eu estava chorando. Não podia acreditar. Deus era tudo isso mesmo. Não pude me segurar e tive que desabafar tudo aquilo que estava trancado em mim. Apesar dos meus problemas serem grandes, nem se comparavam com a história que acabara de ouvir.
_Eu acho que posso contar pra vocês o que eu estou vivendo. Posso?
_Claro Líli. É por isso que te trouxemos aqui, para te ajudar._Miguel falou.
_Ok. Bom, tudo começou quando morávamos em Portugal. A algum tempo meus pais vem discutindo por razoes que eu não sei, eles brigam muito e o tempo todo. Fora isso não se dirigem a palavra. Quando viemos pra cá minha vida desabou, meu irmão ficou lá e não quer mais voltar, ele é quem me ajudava nesses momentos, nós nos apoiávamos um no outro. As brigas pioraram e meus pais estão dormindo em quartos separados. Os meus sonhos ficaram todos pra traz, e eu não vejo sentido em continuar sonhando, decidi que eles são esperanças falsas de algo que nunca vou alcançar. Eu sei que isso não chega nem aos pés do que vocês passaram e agora parece até meio bobo, mas como a Júlia disse, isso é algo que me corrói por dentro. Eu precisava falar pra alguém.
_Líli não existe problema muito grande ou muito pequeno que Deus não possa resolver._A Letícia pegou a minha mão.
_Os nossos sonhos as vezes podem ser enganosos mas há sonhos que vem do coração de Deus. Algo que talvez possa ser útil para a obra dele. Para que mais pessoas conheçam ele._Júlia falou chegando mais perto.
_Queremos te convidar para ir conosco e conhecer a nossa igreja, talvez no sábado. Vai ser o aniversário da congregação. Tenho certeza que você vai se sentir bem e mais perto de Deus. Embora ele esteja em todos os lugares em todo o tempo, lá é a casa dele, onde podemos ter uma intimidade maior._Miguel me disse.
_Sim, eu quero muito ir, eu vou. Eu preciso de ajuda. Preciso pelo menos me sentir melhor com essa situação.
Eles me abraçaram e eu chorei de novo. Olhei para o relógio e a hora havia passado voando._Gente, eu preciso ir embora se não minha mãe me enforca._ Disse secando as lágrimas.
_Ok. Te levaremos pra casa._Miguel falou se levantando.
Descemos e dona Lucia veio até mim e também me deu um abraço de despedida.
_Volte a hora que quiser querida, você sempre será bem vinda.
_Obrigada. Eu me sinto muito bem aqui. Vou voltar com certeza._Eu disse rindo agora.
_Tá. Deu. Vamos se não a tua mãe não deixa mais você voltar._Letícia disse indo para a porta. Nós rimos e a seguimos.
Entramos no carro, desta vez eu sentei no banco da frente.
_Então é por isso que você está atrasado na escola.
_Sim._ Miguel me respondeu.
_E não existe como você terminar mais rápido a escola?
_Sim, existe mas eu preferi continuar normalmente pra não perder nada.
_Hum. Legal. Eu ia preferir acabar tudo de uma vez._Eu ri.
_É que eu quero fazer faculdade. Vou prestar vestibular no fim do ano.
_O que você quer fazer?
_O Mig quer ser médico!_Quase me esqueci que as meninas estavam no banco de traz.
_Uau! Você quer ser médico?
_Pediatra._Ele assentiu com a cabeça.
_Que máximo! Isso é muito legal mesmo.
_Desde que fiquei doente é esse o meu sonho. Qual o seu sonho Líli?
Eu hesitei e disse
_Dançar.
_Hã?
Eu ri de novo
_Eu dançava ballet onde morava. Esse é o meu sonho desde pequena. Eu amo dançar mas meus pais não me apóiam muito, eles queriam que eu fosse algo mais “útil”, falam que não existe futuro nenhum nisso. Eu os entendo, mas é isso que eu quero.
_Então você é bailarina?_A Júlia perguntou.
_Sim, sou.
_Que legal, eu também.
_O que? Você dança?
_Sim. Desde os dez anos.
_Isso é maravilhoso! Onde você dança? Será que eu também posso? Eu preciso, muito!
Eles começaram a rir pela minha empolgação.
_A Júlia dança na igreja. Lá existe uma espécie de escola que se chama CPL, significa Centro Preparatório para o Louvor, onde os professores são membros da própria igreja. Eles são técnicos em várias coisas incluindo música e dança. Há aulas para todas as idades para quem quer se preparar nessas áreas para adorar a Deus inclusive crianças._A Letícia explicou.
_E dá pra adorar a Deus dessa forma?
_Claro. Tudo foi criado para o louvor especialmente a música e a dança.
_Isso é perfeito._Incrível como as coisas estavam se encaixando pra mim.
_Eu tenho aula de música e canto._Miguel disse._Toco alguns instrumentos mas os meus preferidos são piano e teclado.
_Eu toco violino e também canto._Falou a Letícia.
_Uma família de artistas então?_Eu disse.
Nós rimos até chegarmos em minha casa que não era nada longe. Eu me despedi deles muito feliz pela tarde que passamos juntos e aliviada por ter desabafado.
Entrei em casa e a minha mãe estava me esperando.
_Vamos menina! Vai se arrumar. Nós estamos atrasadas.
_E o pai mãe? Ele não vai?
_Não, ele não quer ir.
Subi, tomei banho, vesti uma blusa de lã vermelha, jeans e bota. Não estava muito cansada mas ainda estava com um pouco de olheira pela noite mal dormida, então passei uma maquiagem leve. Me olhei no espelho pela última vez e corri pra baixo.
_Deu mãe, vamos?
_Uau! A senhorita ta um arraso. Onde pensa que vai?
_Ai mãe! Eu exagerei? Não tinha a intenção de me arrumar muito.
_Não, eu to brincando! É que a minha filha é bonita por natureza. Puxou a mãe._Ela riu um sorriso que eu raramente via._Tá legal vamos.
Entramos no carro e rodamos por uns vinte minutos até chegarmos na casa da minha tia. Deu pra notar que tinha muitas pessoas na casa e me deu um pouco de medo porque eu não lembrava de ninguém da família. Meu tio abriu a porta e nos recebeu.
_Que saudade de vocês! Liliana, como você cresceu! Maria! Venha ver a sua irmã e a sua sobrinha!
Ela veio e abraçou a minha mãe a duas começaram a gritar que nem duas adolescentes.
_Não liga. Elas sempre foram assim._Meu tio falou de canto pra mim.
_Líli. Você está linda.
_Oi tia, feliz aniversário.
Nós passamos uma noite muito agradável, conheci meus primos Marcos e Juliana mais ou menos da minha idade. Uma hora minha mãe e minha tia desapareceram e eu saí procurando elas. Ouvi uma conversa e fiquei espiando na beira da porta da cozinha. Elas estavam lá dentro e minha mãe estava chorando. Aquilo quebrou o meu coração em pedacinhos.
_Líli! Vem ver uma coisa._O meu primo chamou e eu saí dali antes que elas me vissem.
O caminho de volta pra casa foi sem muitas palavras, resumidas em “a festa estava legal” e “Que sono”.
Chegamos e meu pai já tinha ido dormir. Dei boa noite para minha mãe e fui para o quarto. Sentei na cama e fiz uma retrospectiva do meu dia. Havia sido incrível com descobertas maravilhosas. Eu estava feliz pela amizade de Miguel, Letícia e Júlia. Mais feliz ainda em saber que Jesus morreu por mim, pra que eu fosse feliz. Agora que eu sabia a verdade eu também poderia ser salva. Coloquei o pijama, deitei na cama e me dei conta de como eu estava cansada.





Capítulo - 7
Eu não quero sair daqui




O resto da semana passou rápido. Sempre que podiam meus amigos me falavam sobre coisas da bíblia e eu ficava cada vez mais fascinada, eu adorava ficar com eles e aprender mais de Deus. Enfim chegou o sábado e eu fui direto na minha mãe.

_Mãe, eu posso sair com a Letícia, a Júlia e o Miguel?
_Onde eles vão?
_Na igreja. Eu queria muito ir com eles. É aniversário de lá e eles vão fazer uma apresentação. Posso ir?
_O que? Igreja? Você quer ir em uma igreja? Você nunca foi disso, o que estão aprontando?
_Não estamos aprontando nada. Eu só gostaria de conhecer melhor onde eles vão.
_Eles vão te levar e trazer? Que horas chegam?
_Claro mãe, eles são super responsáveis. Principalmente o Miguel. E acho que não vai acabar muito tarde.
_Ok, acho que vou deixar, apesar de achar essa história meio etranha._Ela foi saindo pela porta resmungando._Você nunca foi de ir em igreja.
_Obrigada mãe.
_Ahã!_Ela gritou da cozinha.
Fui correndo pro meu quarto e liguei pra Letícia.
_Oi amiga!_Ela me saudou animada.
_Oi! Tudo certo pra hoje então?
_Certíssimo. A gente te pega aí as sete horas.
_Leti, eu to com uma dúvida. O que eu devo vestir?
_De preferência uma roupa. Ta frio._Ela riu.
_Eu to falando sério! Eu não sei que tipo de roupa eu visto para ir em uma igreja.
_Ué, coloque o que você se sente bem. Só não vale pijama._Ela riu outra vez._Vamos fazer assim, eu vou pra aí mais cedo e o Mig pega a gente, pode ser?
_Ai, muuuito obrigada!
_Ta, tchau que eu to sozinha com a Alice e ela quer pular do sofá!
_Ok, Tchau._Eu desliguei o telefone antes que ficasse no vácuo de novo.
Umas seis horas ela chegou, toda empolgada querendo me produzir. Estava com um vestido preto, casaco, e bota em uma harmonia perfeita, super elegante.
_Muito bem._Ela abriu meu guarda roupa. E começou a procurar._Esse, esse, com certeza esse, e mais esse aqui._Ela foi tirando de lá um jeans skinner, uma bota preta de salto agulha, uma mini vest cinza, e um sobretudo preto. Eu vesti, dei uma volta.
_E daí? Como ficou?
_Perfeito! Eu me surpreendo comigo mesma. Ficou descentemente fashion._Ela riu da sua conclusão.
_Tá bom então._eu ri junto.
Nós descemos quando minha mãe chegou do supermercado.
_Nossa! Como vocês estão elegantes._Ela disse.
Nós a ajudamos com as compras e nos sentamos na cozinha. Minha mãe e Letícia ficaram conversando e eu percebi que a minha mãe gostava muito dela. No meio da empolgação da conversa um carro parou na frente de casa e um pouco depois a campainha tocou. Já sabíamos que era o Miguel e a Júlia então corri e abri a porta. Fiquei lá por uns segundos pensando “Uau”.
_É,...vocês estão prontas?_Miguel estava de terno, o que eu não gostava muito mais nele ficou um máximo.
_Sim..._Eu fechei a boca._E a Júlia?
_Ela esta no carro.
_Entra, nós já estamos indo.
Ele entrou e as duas estavam vindo da cozinha.
_Nossa! Que lindo você está Miguel._Minha mãe falou indo dar um abraço.
_Obrigado dona Ana._Ele disse ficando visivelmente vermelho.
_Humm...e cheiroso! Eu virei os olhos e a cabeça acompanhou. A Letícia deu uma gargalhada e a vermelhidão do Miguel aumentou.
_Tá bom, acho melhor a gente ir agora._Eu falei tentando quebrar o constrangimento.
_Obrigado._Ele sussurrou ao passar por mim. Eu ri.
Entramos no carro e seguimos. Eu estava com um grande frio na barriga, meio que tremendo de nervosismo. Após rodarmos todo o caminho paramos em frente a igreja. Ela era grande com tons de verde, uma escadaria que dava para a porta de entrada, que era muito bonita de madeira, ao lado a escola que me falaram. Era um prédio colorido também muito bonito. Na rua haviam vários carros estacionando e pessoas entrando na igreja. Nós saímos do carro, as meninas mais que de pressa foram uma para o meu braço esquerdo e outra para o direito. Muitos vinham e abraçavam a gente, eu me senti muito bem vinda. Elas me colocaram sentada na terceira fileira de bancos pois era onde tinha espaço, o lugar estava lotando.
_Líli, você se importa de ficar aqui um pouco? A nossa mãe já esta chegando pra ficar com você. Eu preciso subir para o coral, o Mig pra banda e a Júlia tem que se arrumar.
_Podem ir, eu to bem.
Eles foram cada um para suas respectivas funções. E eu fiquei sentada esperando. Muitos que passavam vinham me cumprimentar e dizer que eu era bem vinda. Eu estava distraída vendo as crianças que estavam sentadas na minha frente quando a dona Lucia apareceu do meu lado.
_O Líli. Como vai? Tem um espaçinho aqui pra mim?
_Oi dona Lucia. Claro que sim.
Ela sentou do meu lado e me deu um beijo. Na hora um homem no púlpito pegou o microfone e disse “eu cumprimento a igreja com a paz do Senhor Jesus, amém?” Todos repetiram animadamente “amém”. Eu dei um pulo e as crianças que estavam na frente começaram a rir do meu susto, eu ri com elas.
_Quantos estão alegres em estar aqui essa noite?_Perguntou o homem e todos responderam com outro amém.
_Esse é o nosso pastor Líli._Dona Lucia explicou.
Todos se colocaram em pé e fizeram uma oração, o que eu fiz foi agradecer a Deus por eu poder estar ali. Uma moça foi até lá e pediu para que todos abrissem uma tal de harpa no hino de número trezentos e cinco. Entendi depois que era um livrinho com várias músicas. Todos cantavam forte e alegremente e eu tentei acompanhar com Lucia. O pastor voltou para o púlpito e chamou uma moça para cantar, quando ela subiu lá eu vi que era a mariana, eu não tinha a visto, ela cantava muito bem. Depois que vi ela comecei a procurar pelos outros e estavam todos lá, Matheus na bateria (agora fazia sentido), Lucas no baixo e Renan no vocal. Miguel estava com eles na guitarra, era muito legal ver eles lá. Outras orações foram feitas, outros cantaram, até que foi anunciado o grupo de coreografia. Entraram muitas meninas de diferentes idades, todas com roupas maravilhosamente lindas. Eram vestidos brilhantes de cores diferentes. Vi Miguel indo para o piano e ajeitando o microfone, Letícia também se colocou a frente. Miguel Começou a tocar e elas a dançar. Era uma coreografia perfeita e harmoniosa assim como a voz deles e o som que fluía do teclado. De repente eu percebi algo familiar, a música, era a que eu escutei no avião “eu e minha casa serviremos a Deus, eu e minha casa serviremos a Deus, com alegria”. Eu comecei a chorar, isso era demais pra mim. Golpe baixo. Tocou direto no meu coração, a dança, a música, como eu queria que essa fosse a realidade para a minha família. Senti alguém me abraçando e eu desabei no choro. Eu estava tão cansada. Dona Lucia me falou o quanto eu era especial para Deus, o quanto ele me amava. Era como se ele próprio estivesse falando comigo. Quando me recompus vi que a apresentação tinha acabado. O pastor voltou e começou a falar do grande amor que Deus tem por nós, tudo o que ele falava servia como luz para a escuridão que estava a minha vida. Disse que Jesus estava prestes a voltar para levar a igreja e que nós não poderíamos ficar para traz. Que todas as nossas lágrimas lá não iriam voltar e que nós seriamos eternamente felizes. Eu queria muito isso. Ao final de tudo, depois daquelas palavras que pareciam ser ditas diretamente para mim, ele pediu para aqueles que ainda não tinham aceitado Jesus como salvador, se o quisessem aceitar, que passassem lá na frente como sinal de rendição e arrependimento. Eu não pude esperar nenhum segundo mais. Corri e caí de joelhos na frente do altar, chorando de me acabar. Senti mais braços ao meu redor e todos chorando comigo, Letícia, Miguel, Júlia, dona Lúcia, Matheus, Mariana, Lucas e Renan. Me senti incrivelmente amada como nunca antes. Queria que meus pais e Guilherme estivessem junto comigo. Não queria sair dali nunca mais. Pedi para que se Deus fosse real e quisesse mudar a minha vida, tirasse esse peso que eu estava carregando. Estava decidida, era ali onde eu queria estar, era Deus quem eu devia adorar, através do dom que eu tinha e que Ele me deu. Depois de um tempo as pessoas que tinham ido a frente começaram a se sentar e eu me levantei me sentindo incrivelmente leve, como se eu pudesse voar, se eu dançasse agora nem iria sentir meus pés. Voltei para o meu lugar com a dona Lúcia. O culto foi despedido com um convite para voltarmos no domingo. Eu com certeza voltaria. Antes de sairmos o pastor veio falar comigo e com meus amigos, ele cumprimentou cada um e depois a mim.
_A paz do Senhor minha jovem, então você aceitou a Jesus hoje?
_Sim Senhor, eu quero muito fazer parte dessa igreja. Eu também quero ser salva e adorar a Deus como os meus amigos.
_Vejo que você está convicta do que quer. Qual o seu nome?
_O meu nome é Liliana Gonçalves. E sim, eu tenho certeza do que eu quero.
_Muito prazer Liliana. Eu sou o pastor Marcos e você é bem vinda aqui. Se você tem tanta certeza assim temos um curso de membros para aqueles que querem aceitar Jesus e ser batizados. Este curso nos dá uma base de como deve ser um cristão, do que significa o batismo entre muitas outras coisas, para que você tenha realmente certeza de que é esse o caminho que quer seguir. Você quer participar?
_Sim pastor! Claro que eu quero.
_Então você pode vir nas quartas feiras as dezenove horas, e também freqüentar os cultos. E que Deus te abençoe, essa foi a decisão mais importante da sua vida.
_Muito Obrigada, eu virei sem falta.
Nós saímos todos conversando muito felizes. Todos estavam felizes por mim. E eu por ter encontrado o caminho certo. Conheci o pai da Letícia na saída, seu Paulo.
_Ah. Então você que é a Líli? Muito prazer menina.
_Muito prazer senhor.
Nós ficamos um pouco mais para comer o bolo de aniversário e fomos embora.




Capítulo - 8
Vida nova!


No caminho para casa combinamos de sair no domingo para eles me mostrarem a cidade, Letícia disse que seria meu guia turístico e Miguel disse pra eu não confiar no senso de direção dela porque acabaríamos nos perdendo, e que como ele era o “de maior” ele nos guiaria. Nos despedimos e eu entrei em casa com um sorriso de orelha a orelha até me deparar com o meu pai.
_Onde você estava garota?
_Pai, eu fui na igreja com os meus amigos. A mãe sabe que eu sai.
_Sua mãe sabe mas eu não._Ele disse gritando._E que amigos? Que negócio é esse de igreja?
_Pai, os meus melhores amigos, na realidade os únicos, são evangélicos. Eles me convidaram pra ir com eles na igreja e eu estou indo.
_Como assim está indo?
_Vou freqüentar a igreja deles.
_E eu posso saber, com a permissão de quem?
_Eu preciso de permissão para ir na igreja pai?
_Nesse caso precisa. E você vai ter que pedir permissão pra mim. Sua mãe não é a única responsável por você. E espero que esse negócio de ir na igreja acabe logo.
_Não vou discutir com você pai, por mais que você tente. Boa noite._Eu disse subindo a escada. Ele não respondeu nada, só ouvi o ruído dele se jogando no sofá. Passei pelo quarto da minha mãe e ouvi lá dentro ela chorando, aquilo acabou de vez com o meu humor. Eu já aceitei Jesus, bem que ele poderia me dar uma forcinha. Fui para o quarto, coloquei o meu pijama e me ajoelhei. O meu objetivo era orar, mas eu nunca tinha feito isso tão formalmente, então comecei, “Jesus, não sei muito bem como fazer isso, mas eu queria que, por favor, você me ajudasse. Sei que já fez muito por mim morrendo na cruz para que os meus pecados fossem perdoados, mas sei também que o Senhor sabe o que estou passando com a minha família (aí uma lágrima não se conteve e rolou no meu rosto). Se for possível eu te peço que acabe com isso, que meus pais voltem a se dar bem. Que eles queiram ir na igreja comigo e que também te aceitem como salvador. Que o meu irmão possa estar com a gente e te conheça também. Eu te agradeço pelos amigos que me deu, eles são muito importantes pra mim. Eu acho que era isso, amém.” Deitei na cama muito mais tranqüila e em paz do que todas as vezes que eu dormi aqui. De alguma forma eu sabia que tudo ia dar certo.
O sol bateu no meu rosto e eu corri para a janela. O dia estava lindo e perfeito para conhecer a cidade que agora seria definitivamente o meu lar. Me vesti e desci com um super bom humor, meu pai estava descendo a escada também.
_Booom diiia pai!_ Eu agarrei a cara dele com força e dei um beijo na bochecha.
_Bom dia!_Ele me olhou espantado._Por que o ânimo?
_Eu apenas estou feliz.
_Bom dia Mãe!_Fiz o mesmo com ela ao chegar na cozinha.
_Nossa por que a felicidade?
_Eu queria saber se posso ir hoje com os meus amigos conhecer a cidade, eles querem me mostrar os pontos turísticos e tal. Posso? Pooor favoooo!_Eu implorei.
_Por mim tudo bem._Minha mãe aprovou a idéia.
_Eu não sei não, Não gosto de você andando com essa gente._O meu pai falou.
_Por favor pai, eu não conheço nada aqui, só vou de casa pra escola e da escola pra casa. Se algum dia eu precisar ir a algum lugar não vou saber. Aqui é minha casa agora né?
_Ta ok então, mas só por esse motivo, estou indo pro restaurante.
_Não vai tomar café?_A minha mãe perguntou.
_Eu tomo lá._Ele pegou a chaves do carro e saiu.
A minha mãe sentou na mesa com a expressão de derrotada.
_Mãe, até quando vai durar isso? Vocês estão sempre brigando._Eu finalmente tive coragem de abrir a boca para isso. Ela olhou pra mim e começou a chorar. Eu sente do lado dela e a abracei.
_Eu não sei o que fazer. Não sei o que está errado. Eu queria poder mudar isso mas se eu faço qualquer coisa pra melhorar ele se irrita, eu me irrito por causa dele, e a gente acaba brigando. É sempre assim. Eu não sei que atitude tomar, eu não queria mas acho que a única saída é o divórcio.
_Mãe, você ainda ama o pai?
_Claro que sim. O amor desgastou muito mas ainda amo sim. Com ele eu não acredito que seja igual. Ele está muitíssimo distante e irritado e eu não sei o porquê.
_Que coisa mãe. Eu sinto muito. Eu não sei o que posso fazer pra ajudar...espera, mãe porque você não vai comigo na igreja? Eu tenho certeza que você iria se sentir bem melhor se aceitasse Jesus como eu fiz.
_O que...Não, eu não acredito que isso possa mudar alguma coisa.
_Bom, se você não acredita então não muda mesmo. Mas se você desse uma chance para Deus...
_Não filha, se você quer continuar indo eu não me oponho. Até porque aqueles meninos são muito gente boa, mas eu não vou.
_Tá bom mãe, não vou ficar te enchendo a paciência com isso mas eu queria muito que você me acompanhasse um dia. Aí pelo menos você iria conhecer onde estou indo.
_Vou pensar.
Nós tomamos o café da manhã sem a menor pressa até o som do carro (que já estava ficando freqüente e conhecido) soou na rua e alguém bater na porta freneticamente.
_Letícia!_Nós dissemos juntas.
Eu abri a porta.
_Tá pronta?_A Letícia perguntou com muita ansiedade, parecia que ia sair correndo.
_Sim, só tenho que pegar a minha bolsa.
Subi correndo, peguei a bolsa e desci.
_Você vai ficar bem sozinha mãe?
_Não se preocupe comigo. Eu vou arrumar algumas coisas aqui depois vou no supermercado, talvez eu pegue um DVD.
_A Senhora não quer ir conosco?_A Letícia perguntou.
_Ah, não vão só vocês. Eu não quero ficar prendendo vocês. Vão se divertir.
Eu dei um abraço bem forte nela e nós saímos.
_Oi gente! Onde vamos?_Eu perguntei ao entrar no carro.
_Vejamos...Usina do gasômetro, Parque da redenção, Jardim botânico,...
_Nossa!_Eu interrompi o Miguel_ E nós Vamos conseguir ver tudo hoje?
_Podemos tentar. Também queremos levar você no centro da cidade.
_É muito louco._ A Júlia falou.
_Você tem hora pra chegar em casa?_Miguel me perguntou.
_Não, desde que não chegue amanhã._Eu ri.
_Se der tempo podemos ir no shopping e no cinema?_A Letícia perguntou para o Miguel.
_A gente tem tanto tempo pela frente e você quer fazer tudo hoje?_Ele respondeu.
_Ué, vai que Jesus volta e não da tempo._Nós rimos pela convicção com que ela falou.
_Ta bom então, vamos ver até onde podemos ir._Miguel se rendeu.
Naquela manhã nos divertimos muito. Conheci praças e parques, brincamos como crianças em pracinhas, almoçamos hambúrguer com batata frita e sorvete de sobremesa, tiramos fotos em todas as poses imagináveis, a tarde visitamos museus inclusive o de  Porto Alegre para conhecermos sobre a cidade em que eu nasci. Depois fomos até a Usina do Gasômetro e quando o sol estava se pondo corremos para olha-lo. Era realmente lindo e eu pude me sentir em casa, sentada ali com meus amigos eu tive a certeza de que minha vida estava tomando um novo rumo. Eu tinha uma vida nova.
_E agora?_Letícia interrompeu meus pensamentos_Podemos ir ao shopping?
_O que você acha Líli? Você pode ir?_Miguel me perguntou.
_Sim.
Antes de o sol se esconder por completo saímos correndo dali e fomos para o shopping. Mais fotos foram tiradas, mais besteiras foram comidas, e nós nos divertimos muito. Decidimos não ir ao cinema porque já estava tarde e combinamos de ir um outro dia. Voltamos para o carro e seguimos para a casa.
_Tchau gente! Obrigado pelo passeio. O meu dia foi maravilhoso._Eu disse saindo do carro.
_Tchau._Eles responderam.
_Até amanhã._Miguel falou.
_Até._Eu andei devagar até a entrada.





Capítulo - 9
Não era para ser só alegria?


Olhei para o relógio que marcava nove horas e abri a porta. Estava quieto.
_Mãe!_Eu chamei e ninguém respondeu. Larguei minha bolsa no sofá e vi que tinha um bilhete em cima da mesinha.

Líli
Volto logo,
Tive que fazer umas coisas.

Coisas? Que coisas? A essa hora? O meu pai também não estava e eu me senti estranha sozinha na casa. Subi para o meu quarto e liguei o computador mas meu irmão não estava on line, então fiquei vendo uns vídeos de coreografia em igrejas no Youtube, fique cada vez mais maravilhada e vidrada na tela que não vi as horas passarem. Já eram quase onze horas quando eu ouvi a porta da entrada bater forte. Minha mãe estava subindo a escada bruscamente, ela fechou a porta do quarto sem nem olhar para mim.
_Mãe? O que aconteceu?_Eu bati na porta e ela não disse nada.
_Mãe, eu to preocupada, se você não falar comigo eu vou arrombar a porta.
_Como se você tivesse força._Ela falou_Eu não quero conversar Líli. Me deixa quieta amanhã eu falo com você.
_Mas mãe...
_Eu já disse! Me deixa quieta.
Voltei pro meu quarto devagar e sem entender nada. Peguei a minha câmera, sentei na janela e fui passando as fotos. Em tão pouco tempo eu fiz amizades que durariam para sempre, eu tinha certeza. Deitei na cama e dormi rápido pensando no dia que tive tentando esquecer o surto repentino da minha mãe. Acordei de madrugada, levantei para ir ao banheiro e percebi que o meu pai ainda não tinha chegado e aquilo me deixou muito preocupada. Achei melhor não preocupar a minha mãe e não a chamei, não conseguia dormir então orei para que Deus protegesse o meu pai onde quer que ele estivesse. De manhã eu desci e a minha mãe ainda não tinha se levantado, entrei no quarto dela bem devagar. Ela estava rodeada por papel higiênico, provavelmente chorou muito, e dormindo pesadamente. Não a acordei, desci tomei café e fiquei sentada na varanda esperando meus amigos. O carro chegou e nós saímos dali. Eu fiquei olhando pra traz como se estivesse esperando por algum sinal da minha mãe.
_Aconteceu alguma coisa Líli?_Miguel me perguntou com cara de preocupado.
_Quando cheguei em casa ontem meus pais não estavam, algumas horas depois a minha mãe chegou muito estranha mal falou comigo, o meu pai não voltou até agora. Eu não sei o que está acontecendo._Eu respondi.
_Isso é muito mal._A Letícia falou.
_Você não perguntou nada pra ela?_Dessa vez Júlia falou.
_Perguntei mas ela não quis falar, eu estou me sentindo totalmente ignorada  nessa história. Será que eu não tenho o direito de saber? Eu sou filha deles! Eu não quero que eles se separem, mas e se essa for a única solução? E...eu não sei.
_Líli, a separação nunca é a solução._Miguel começou a me explicar._Não existe no mundo um casal que nunca teve uma desavença, uma briga, nós somos seres humanos somos fracos, falhos, pecadores, é claro que vamos algum dia magoar a pessoa que amamos. Não é intencional, é claro, mas por cada um ter uma personalidade. As vezes as pessoas pensam que é mais fácil fugir de um problema do que enfrentá-lo e resolve-lo. Isso acaba virando uma bola de neve e a magoa vai aumentando. Se um casal aprender a conviver com as diferenças, a ser tolerante, a tentar entender o lado do outro, porque apesar de serem uma só carne nem sempre os pensamentos são iguais, o relacionamento com certeza vai durar até que a morte os separe, como deve ser e raramente acontece.
_Uau! Você entende mesmo desse negócio de casamento._Eu me surpreendi.
_Não dá vontade de casar com ele Líli?_Letícia soltou essa e eu fiquei vermelha sem saber o que dizer. Júlia começou a rir e Miguel deu um empurrão nela.
Para me salvar da situação constrangedora chegamos na escola e eu saí do carro bem depressa.
_Desculpa aí Líli. Eu não quis te deixar com vergonha._Letícia veio correndo atrás de mim.
_Ta tudo bem é que as vezes o Miguel me intimida.
_Por que ele é bonito?
_Ta legal, essa conversa ta ficando estranha.
_Ok, vou parar de falar porque você ta ficando vermelha de novo.
Eu dei um empurrão nela e nós fomos para a sala.

---*---

Passaram-se julho, agosto e setembro. Estávamos em outubro e eu sempre ia para a igreja e aprendia cada vez mais, sempre que tinha algo eu estava lá, todas as manhãs de domingo ia a escola dominical porque tinha sede de aprender mais e mais. Estava fazendo o curso de membresia e estava decidida a me batizar. Depois de batizada eu também poderia ter aulas na
CPL e participar de atividades na igreja como dançar e quem sabe cantar e tocar algum instrumento. Estava felicíssima. Só havia um porém, meus pais não melhoraram nada o comportamento. Eu não contei a eles sobre o batismo e estava com medo de contar. Eu pensei que isso melhoraria, não era pra ser tudo diferente agora? Eu estava feliz com Deus e isso sempre me acalmava, mas meus pais estavam cada vez piores, e eu continuava sem saber o que fazer. Toda vez que tentava conversar com eles me ignoravam. No dia que meu pai dormiu fora de casa só chegou as oito horas da noite no outro dia, provavelmente ele foi para o trabalho direto de onde quer que ele estava. Meu irmão raramente dava notícias e meus pais pareciam não estar se importando tanto com isso. Comecei a pensar que seria melhor pra ele não presenciar o que estava acontecendo e que ele deveria ficar por lá apesar da saudade que eu estava sentindo. Enquanto isso eu me refugiava em Deus. Em um dia eu estava saído distraída da sala de aula enquanto a Letícia e a Júlia falavam com a professora e me surpreendi com Miguel que estava na porta.
_Oi._Ele me disse.
_Oi, porque você veio até aqui? Sempre espera a gente lá embaixo.
_É que eu queria te dar uma coisa._Ele confessou meio envergonhado me estendendo uma caixa cor-de-rosa com um laço vermelho.
_Hã? O que é isso?_eu perguntei meio confusa.
_Um presente.
_Um presente? Por que?
_Ué, eu vi na loja e lembrei que você ainda não tinha, é uma coisa que você vai precisar muito.
_Então ta, muito obrigada._Eu fui abrindo o presente.
_Espera para abrir em casa._Ele disse pondo a mão em cima da caixa e olhando para o lado das meninas. Eu presumi que elas não sabiam nada sobre o presente.
_Elas não sabem?_Eu perguntei.
_Se elas souberem vão ficar me sacaneando para o resto da vida.
_Mas que presente é esse afinal?_Eu coloquei o presente na mochila.
_Não é pelo presente e sim por “eu” te dar o presente._Ele me explicou.
_E o que há de errado nisso?
_Nada, é que elas...bom, deixa pra lá. Espero que você goste.
_Vou gostar, com certeza. Foi o primeiro presente material que eu ganhei desde que vim pra cá.
_Presente material?
_Sim. Os primeiros Jesus me deu, foram vocês. E o segundo vocês me deram, Jesus.
_Gostei._Ele disse rindo e eu ri junto.
_O que vocês estão fazendo?_Letícia deu um pulo do nosso lado.
_Conversando. Podemos ir agora?_Miguel falou muito rápido para o normal. Eu ri.
_Sim, podemos._Letícia fez uma careta.
Ao chegar em casa corri para o meu quarto, sentei na cama e abri a caixa. Eu cima do papel de seda vermelho havia uma bíblia linda cor-de-rosa. Junto havia um envelope e dentro uma correntinha com um pequeno pingente de ouro no formato de uma bailarina e um cartão dizendo.

Oi Líli.
Bom, esta bíblia é a palavra de Deus, Luz para os teus caminhos. Confia nele e não se deixe abalar nunca. Seja forte, eu sempre vou estar com você para o que precisar. Sua amizade é um tesouro pra mim. Você é especial e Deus precisa de você aqui, por isso ele te trouxe. Ah, a bailarina achei a tua cara. Espero que goste.

Bjs, conta comigo!
Miguel

Quando terminei de ler estava sorrindo e uma lágrima caía dos meus olhos pingando no papel. Nem percebi que minha mãe estava entrando no quarto.
_Líli, vem almoçar...o que foi?_Ela perguntou ao ver que eu estava chorando.
_Nada mãe, só me emocionei com o presente._Eu declarei com os braços moles.
_Presente? De quem? Deixa eu ver._Ela sentou ao meu lado._Uma bíblia? Quem te deu?
_Uma bíblia e uma correntinha,...foi o Miguel.
_Umm, ganhando presentes do Miguel? Eu não sabia que existiam bíblias cor-de-rosa.
_Existem sim, bonita né?_Eu disse meio envergonhada.
_Sim, mas por que ele te deu?
_Bom, ele disse que eu vou precisar. Que é a palavra de Deus e que é luz para o meu caminho e...mãe, eu quero te contar uma coisa e eu preciso que você me apóie.
_O que é Líli?_Ela fez uma cara de que não estava entendendo.
_Mãe, eu estou indo na igreja deles a alguns meses e vou me batizar daqui a alguns dias, essa é a decisão mais importante da minha vida, eu não vou mudar de opinião e espero que você e o pai me apóiem.
Ela ficou um tempo parada olhando para o nada até começar a falar de novo.
_Líli, eu não vou me opor a essa decisão simplesmente pelo fato de você ter um comportamento exemplar. Parece que você voltou a respirar depois que começou a andar com Letícia, Miguel e Júlia. Eles te fazem bem, e eu não vou ser contra quem, ou o que, faz bem para a minha filha. Ainda mais nesse período conturbado em que estamos.
_Obrigada mãe._Ficamos abraçadas por um tempo_Eu queria muito que você fosse comigo um dia._Ela só suspirou.
_Você acha que o pai vai ser contra?_Eu voltei a falar.
_Com certeza. Com ele não vai ser fácil. Ou talvez ele nem perceba, ele sai de casa as sete e só volta lá pela meia noite.
Eu não tinha percebido o quanto a minha mãe estava cansada. Ela já não se arrumava como antes e não tinha ânimo para nada, ultimamente nem para discutir com o meu pai.
_Ta ok, vamos almoçar._Eu coloquei o presente na cama e puxei ela pela mão.
_Espera._Ela me puxou de volta_Não vai colocar?_Ela me alcançou a correntinha._Ele vai ficar triste se não te ver usando.
Eu ri e levantei o cabelo para ela colocar em mim.
_Sabe, eu acho que ele gosta de você._Ela me deu um cutucão enquanto íamos para a escada.
_Para mãe, ele é o meu melhor amigo depois da Letícia. Eu nunca imaginei ele sem ser dessa forma.
_Então ta. Quando vocês andarem de mãos dadas por aí não diga que não avisei._Ela rio e eu fiz uma cara feia.







Capítulo - 10
Festa de pijama





No fim de semana eu conversei com o pastor e expliquei que minha mãe apoiou o meu batismo e que não pude falar com o meu pai porque ele nunca estava em casa. Ele então orou por mim e pela minha família e disse que então eu poderia me batizar em duas semanas. Eu fique felicíssima e corri para avisar meus amigos.
_Gente eu vou me batizar no próximo batismo!_Eu dei uma de Letícia e pulei ao lado deles.
Todos da família me abraçaram e eu aproveitei o abraço do Miguel para agradecer de novo pelo presente maravilhoso.
_Amiga, nós precisamos comemorar. Você está intimada a comparecer a minha festa de pijama hoje mesmo._Letícia me falou.
_Desde quando você ta planejando isso Letícia?
_Faz uns trinta segundos.
_E você pediu para a sua mãe?
_Ela deixa, né mãe?
_Dificilmente a gente consegue parar a Letícia._A dona Lucia declarou._Se limparem a bagunça depois tudo bem.
_Viu?_A Letícia olhou para mim com um sorriso de orelha a orelha.
_Ta bom então. Mas eu tenho que ver com a minha mãe se tudo bem.
_Então ta, tudo certo.
Nós passamos na casa da Mariana para ela pegar as coisas dela e depois na minha casa. Minha mãe deixou eu ir numa boa.
_Você não se importa de ser nosso chofer?_Eu perguntei para o Miguel.
_É o meu dever de irmão mais velho. Ou pelo menos até a Léti tirar carteira. E não pensem que eu não tenho nada para fazer, também vou sair viu._A ultima parte foi direto para Letícia.
_Pois se divirta irmão. Ultimamente você anda só enterrado nos livros._Letícia respondeu apoiando.
Eu fiquei morrendo de curiosidade de saber onde ele ia, mas achei que não seria legal eu perguntar. Ele entrou um instante conosco e pegou algumas coisas.
_Eu vou em uma pizzaria com alguns dos guris do igreja._Ele explicou diretamente pra mim.

_Hum, legal. Divirta-se._Eu disse tentando não demonstrar muito interesse apesar de eu nem saber o porquê da minha reação. Não funcionou, minha voz saiu meio idiota.
_Ok então, até._Ele se despediu.
_Ta, tchau._Eu respondi e ele saiu.
_Líli!_Eu ouvi a voz da Letícia na escada. Aí eu percebi que tinha ficado só Miguel eu e na cozinha.
Corri e as alcancei.
_Que demora. Nós temos muito o que fazer._Letícia falou.
_E o quais são os planos da senhorita?_A Mariana perguntou.
_Bom, pensei em inventarmos penteados, fazer as unhas, comer, olhar filmes, falar de quem gosta, comer, jogar, desfilar de pijama, comer, fotos, um vídeo louco, uma coreografia louca, comer,...Não necessariamente nesta ordem._Nós rimos.
_E o que faremos primeiro? Comer?_Júlia falou e ganhou uma travesseirada.
Nós fomos para o quarto dela e por incrível que pareça á meia noite já tínhamos feito quase tudo, só faltava o filme. Eu desci com a Júlia para pegar mais pipoca e ela aproveitou para ir ao banheiro. A porta se abriu e Miguel entrou. Eu dei graças a Deus por eu estar com um pijama super descente.
_Oi._Ele ficou surpreso ao me ver.
_Oi, como foi a noite?_Eu perguntei tirando a pipoca da panela e colocando no pote.
_Divertida._Ele falou sentando com a mão cheia de pipoca.
_E você ainda tem fome para comer pipoca?_Eu perguntei me sentando também.
_Eu acho que o meu estomago é grande demais._Nós rimos.
_E vocês? Aprontaram muito?_Ele tornou a falar.
_Um pouco._Eu torci para que a Letícia não mostrasse para ele os vídeos, o que provavelmente faria.
_Só imagino. E você? Como está? Faz tempo que não conversamos.
_Estou bem. Apesar da briga dos meus pais não parar nunca eu confio em Deus. Ele já me disse que vai dar tudo certo, só que as vezes é cansativo sabe. Eu me sinto bem quando leio a bíblia, quando estou com vocês, quando falo com Deus. A ferida que se formou por tanto tempo fica totalmente curada através disso, mas ela parece querer se abrir todas as vezes que presencio uma briga. E isso dói muito.
Miguel secou com os dedos uma lágrima que estava querendo cair do meu olho.
_Eu admiro você Líli. Admiro a confiança que você tem. Admiro você estar sempre disposta a fazer algo pela obra de Deus mesmo que por enquanto seja pouco. Deus tem coisas grandes para você. Ele vai te honrar, você vai ver.
_Sabe, eu to muito feliz pelo meu batismo. Enfim eu vou poder ajudar de verdade. Vou poder ser membra e participar da santa ceia. Vou dançar, e isso é muito importante pra mim.
_Eu queria te ver dançando. Parece que você ama a dança.
_Eu amo sim.
_Quando você se apresentar pela primeira vez vou estar lá na primeira fileira pra assistir.
_Obrigada pelo apoio.
_É, eu vou levar tomates._Ele pegou mais pipoca e eu empurrei o braço dele deixando cair algumas no chão.
_Desperdício é pecado irmã!_Ele disse rindo.
_Não. Sério eu vou estar lá. Não se preocupe, não vou levar os tomates._Ele voltou a falar depois de um momento de risos.
_Não vai guardar os tomates pra depois né?_Eu perguntei.
_Eu pensei nisso, mas tenho certeza que não vou precisar usa-los.
_Ok então. Eu dou o meu melhor e você não usa os tomates.
_Ta certo.
_Que conversa é essa?_Eu falei rido sem entender o rumo que a conversa tomou.
_Eu gosto de falar bobagens com você._Ele riu ficando um pouco mais sério.
_Eu também. Me sinto a vontade  com você, as vezes mais do que com a Letícia.
_Sério?
_Sério._Eu declarei pegando pipoca.
_Por que?_Ele fez cara de curioso com a boca cheia.
_Eu amo a Léti, demais mesmo. É que as vezes ela é, digamos, um pouco entusiasmada._Rimos.
_A Léti tem um dom de alegrar as pessoas. De sempre enxergar o lado bom de tudo. Tudo mesmo. Só que as vezes ela exagera, ela transforma pequenos assuntos em grandes acontecimentos.
_Isso é verdade._Ela queria fazer um big festa no dia do meu batismo. Eu não deixei.
_Ela é assim mesmo. Eu amo ela desse jeito. Não queria que fosse diferente.
_Eu também.
Ficamos um tempo em silencio olhando um para o outro, ele olhou para a correntinha.
_É,...Você gostou da correntinha?_Ele perguntou.
_É linda. Eu gostei muito. Não tiro nunca. Estou te devendo um presente.
_Não te dei com intenção de receber algo em troca.
_Eu sei. Quando é o seu aniversário mesmo?
_Dia quinze de abril.
_Hum, mas não pode demorar tanto assim.
_O que você pretende me dar?
_Ainda não sei, as opções são muitas._Eu ri_ Nós fazemos aniversário meio que perto.
_Que dia é o seu?
_vinte e um de março.
_Hum, dezoito anos. Vai ter festa né?
_Provavelmente a Letícia vai se encarregar disso._Concordamos rindo.
_Hei, a Júlia faz dia vinte e quatro de março. Quinze anos.
_É verdade. Super perto. Vai ser um festão né?
_Com certeza. Por festa aquela puxou a irmã.
_E você? Não gosta de festa?
_Gosto sim. Mas não como elas. Elas não se cansam, tinham que ser filhas de ciganos._Ele disse vasculhando o pote de pipoca.
_E você já sabe o que vai fazer depois que acabar a escola?
_Será que dança é uma opção pra mim?_Eu perguntei mais sério agora.
_Se esse sonho Deus colocou no seu coração então eu acho que,... bom,... com certeza.
_Verdade?
_Sim, se Deus sonhou isso pra você então o sonho não pode se frustrar. A não ser que você desista.
_Não vou desistir. O problema são meus pais.
_Eles vão bancar a sua faculdade?
_Provavelmente não. Ou não por muito tempo.
_Então é o seu sonho. O seu dinheiro investido. Ta certo que eles só querem o melhor pra você. Eles temem pelo seu futuro. Por isso são contra. Mas você tem que perseverar se você tem certeza, conversar com eles.
_O problema é a parte da conversa._Eu lamentei batendo com o pote na mesa.
_Se precisar de ajuda eu estou aqui.
Ele pegou uma caneta que estava na mesa e desenhou uma asa de anjo no lado direito da palma da minha mão esquerda, em seguida apertou forte a minha mão entrelaçando os dedos dele nos meus. Quando ele soltou devagar a marca da minha asa ficou na mão dele como se elas estivessem se abrindo. E outra lágrima boba rolou no meu rosto.
_Droga. Por que eu estou sempre chorando?_Eu sequei meu rosto depressa.
_Porque a senhorita é muito emotiva.
_Eu acho que tenho que voltar para as meninas._Eu soltei a minha mão da dele_A gente comeu toda a pipoca. E será que a Júlia ta bem? Faz uma hora que ela ta no banheiro.
_A Jú passou pela porta a mais ou menos uns quarenta e cinco minutos, fez um gesto de coração com as mãos e subiu.
_O que? Mas...
_Fica tranqüila que eu levo pipoca pra vocês.
_Ok._Eu subi correndo e pude ouvir a risada dele na cozinha.
_Vocês já colocaram o filme?_Eu perguntei ao entrar no quarto quando as vi olhando o DVD que tínhamos pegado.
_Claro. Se nós esperássemos por você o filme ia estar cheio de teias de aranha. E nós não queríamos estragar o momento lindo lá embaixo._Letícia respondeu.
_Gente...parem com isso. O Miguel e eu somos amigos. Eu gosto de conversar com ele e é só isso...
_E ele faz o seu coração bater mais forte...
_As mãos suam...
_O estomago fica dando voltas...
Júlia, Mariana e Letícia falaram respectivamente.
_Meninas..._Eu me joguei no colchão que estava no chão_ Eu não posso estar gostando dele. Ele é tão,...tão,..tão mais do que eu entendem? Eu sou só uma garota chata, cheia de problemas. O que ele veria em mim?
_Ele já viu. Pode apostar. Ele viu Deus em você. Viu sede pela palavra. Por isso te deu a bíblia._Letícia falou.
_Vocês sabem que foi ele quem me deu bíblia?
_É,...Nós vimos ele chegar em casa escondendo algo. Nós tínhamos que averiguar._Júlia disse.
_Isso é invasão de privacidade._Eu falei.
_Só precisávamos ter certeza de que ele não estava fazendo nada de errado._Letícia quis se explicar.
_Como se o Miguel fosse fazer algo de errado._Eu respondi.
_Huuuuuummmm! Ela ta apaixonada!_Elas disseram.
Eu joguei um travesseiro nelas o que foi o suficiente para começar uma guerra. Quando já estávamos cansadas o suficiente nos jogamos deitadas olhando para cima.
_Líli. Eu tive uma idéia._Júlia falou.
_Não é outro vídeo né?
_Não. O nosso aniversário é próximo. Quem sabe a gente não faz uma festa juntas? Afinal eu faço quinze e você dezoito.
_Isso seria muito legal. Você não se importa de dividir a atenção?
_Claro que não! Ia ser super legal!
_Então vou ver com os meus pais se eles apóiam. Se tudo certo, então, tudo certo._Nós batemos as mãos.
Houve uma batida na porta.
_Gente, vocês vão pegar a pipoca ou eu deixo na porta?_Miguel perguntou.
_A Líli pega!_Letícia gritou.
_Não!_Eu disse pra ela.
_Sim!_Ela respondeu.
_Não!
_Sim!
_Não!_Eu me escondi embaixo do edredom.
_Ta bom._Júlia foi pegar a pipoca.
_Ué, não era a Líli que ia pegar?_Miguel perguntou.
_Ah, você queria ela irmãozinho?_Ela respondeu e eu senti um ar de duplo sentido na voz dela._Que foi?_Ela falou e a impressão foi que ele teve alguma reação envergonhada.
_Boa noite meninas._Ele gritou saindo.
_Você ouviu Líli. Foi pra você._Ela disse então uma chuva de pipoca voou nela do lado de fora.
Acordamos umas oito da manhã e arrumamos a bagunça. A casa tinha um ar claro que com a luz do sol parecia muito acolhedor. Podíamos sentir o cheiro do café sendo passado lá embaixo. Depois de prontas para descer fomos até a cozinha onde estavam dona Lúcia, seu Paulo e Miguel.
_Bom dia família._Letícia falou.
_Bom dia. Bom dia meninas._Dona Lúcia estava arrumando a mesa.
_Bom dia._Paulo falou, ele estava com a bíblia do lado folhando.
_Bom dia._Miguel falou baixo olhando para a xícara cheia de café.
As meninas correram e sentaram cada uma em uma cadeira deixando a única livre ao lado do Miguel.
_Isso são modos? Vocês estão com tanta fome assim?_Dona Lúcia perguntou.
_Morrendo._Júlia respondeu olhando pra mim e fazendo um sinal para que eu sentasse.
Eu me sentei e fiquei olhando para minhas mãos suando. Escondi-as rápido. Depois do café fomos para a escola dominical. Seu Paulo foi quem deu a aula. Eu não tinha percebido o quanto ele entendia da palavra de Deus, ele sabia responder qualquer pergunta que fazíamos. Na aula parecia que quem mais perguntava era eu. Cada vez que levantava a mão os jovens começavam a rir, eu não me importava, já estava acostumada. Já parecíamos uma família. Nós todos nos dávamos bem apesar de sermos muitos. Depois da escola estávamos entrando no carro para voltarmos para a casa e as meninas decidiram ficar um pouco mais na igreja.
_O Mig leva você pra casa._Letícia falou.
_O que? Vocês não vem?_Não pude controlar o meu espanto.
_Eu levo você Líli._Ele falou.
_Ta._Eu olhei para elas com uma cara feia e elas se juntaram dando um tchauzinho.
Eu entrei no carro do Miguel segurei minha bolsa apertada ao corpo pra tentar fazer meu estomago se acalmar.
_Você ta bem?_Ele perguntou manobrando.
_Sim._minha voz saiu esquisita.
_Você está tensa.
_Eu? Por que? Não to não.
Ele riu.
_Você ta falando rápido, o que costuma fazer quando ta nervosa, e ta com as mãos apertadas. Aposto que tem marcas das unhas na palma das mãos.
Eu abri as mãos e lá estavam elas, as marquinhas das unhas.
_Eu não percebi que fazia isso.
_Você faz._Ele assentiu.
Houve um momento de silêncio.
_Eu,...._Nós dois falamos juntos.
_Pode falar ele me disse.
_Eu gostei muito da escola hoje. Seu pai é muito sábio.
_Ele é mesmo. Tudo o que eu sei aprendi com ele. Você faz perguntas muito interessantes.
_Você acha? As vezes eu penso que faço perguntas idiotas.
_Para você elas não são idiotas mas como vai aprender se não perguntar?
_Ta certo._Um momento de silêncio_ Você também sabe muita coisa.
_Eu sei o que aprendi com o meu pai e o que eu leio.
_Por falar em ler, como estão os estudos para o vestibular.
_A verdade?_Ele perguntou.
_Por favor.
_Eu to ficando louco._Ele declarou.
Eu ri.
_Vai dar tudo certo, você é muito inteligente. Eu tenho certeza que vai passar.
_Eu espero.
Outro momento de silêncio.
_É estranho sem as meninas aqui né? É sempre tão barulhento dentro do carro._Eu comentei.
_É bom ficar sozinho com você de vez em quando._Ele falou e o meu coração parecia que ia sair pela boca._Elas estão sempre enchendo a paciência, eu nunca consigo falar com você sem risadinhas, cochichos, e gracinhas.
_Não liga pra elas. Deixa elas serem felizes._Nós rimos.
O carro parou.
_Acho que chegamos._Ele disse.
_Ok então. Até a noite._Eu me despedi.
_Tchau. Manda um abraço pra sua mãe.
_Vou mandar._Eu entrei no portão e ele estava lá me olhando ainda apoiando a cabeça no punho._O que foi?_Eu perguntei.
_Nada. Só esqueci de dizer como você está linda hoje. _Ele disse arrancando.
Eu fui em direção a porta flutuando.




Capítulo - 11
Chegou a hora


A semana custou a passar, eu estava muito impaciente para o batismo. Eu acordei e levantei rápido, o que eu estive esperando por tanto tempo ia finalmente acontecer. Eu ia ser parte do corpo de Cristo. Ia poder fazer tudo que em meses tive ansiado. Cheguei no meu pai várias vezes para contar porém ele sempre estava ocupado ou com pressa. Pedi para que a minha mãe me acompanhasse, que era muito importante a presença dela e que eu ficaria terrivelmente triste se ela não fosse. Ela aceitou ir. Dessa vez seu Paulo e dona Lúcia nos levaram até o local. A igreja toda se deslocou até um rio onde passaríamos o dia todo.
_Ana, você tem idéia de como a sua filha é especial?_Lúcia perguntou para a minha mãe.
_Como?_Minha mãe parecia estar distraída.
_A Líli. É uma garota maravilhosa. Você deve ter muito orgulho dela.
_Sim eu tenho._Minha mãe me olhou como se estivesse me dizendo que tinha mesmo orgulho de mim.
_Ela é uma garota muito inteligente. Está aprendendo muito. Deus tem grandes coisas na vida dela._Seu Paulo falou.
Minha mãe ficou meio sem entender. E eles começaram a falar de novo.
_Sabe dona Ana, a Líli aceitou a Jesus como salvador. Essa decisão que ela tomou foi a mais importante na vida de alguém. Inclusive da senhora. Eu espero que hoje a senhora entenda tudo isso.
Então a minha mãe começou a fazer perguntas. As perguntas me lembraram uma conversa que tive a alguns meses com duas maluquinhas e um jovem encantador. As palavras ditas pelo seu Paulo e dona Lúcia foram sinceras e contavam a mesma verdade que ouvi e os mesmos testemunhos. Em momentos ela olhava para mim como se estivesse entendendo e maravilhada pelo que estava ouvindo. Eu só sorria porque eu entendia o que ela estava sentindo. Eu sabia o que estava entrando no coração dela e como começava a se sentir despedaçada e ao mesmo tempo aliviada. Ela conteve as lágrimas, mas deixou claro que tinha entendido tudo, e que começara a compreender o porquê de toda a mudança na minha vida. Chegamos ao local. Ao sair do carro abracei forte a minha mãe enquanto as meninas que já estavam lá vinham em nossa direção.
_Onde está o Miguel?_Eu perguntei sem perceber a besteira que eu falei.
_Aaaai, ela quer saber do Miguel!_Elas disseram.
_Gente,...por favor._Eu falei com cara de quem estava cansada com as brincadeiras._Se eu gosto do Miguel ou não é problema meu.
_Posso entrar na conversa?_Nãããão, ele estava atrás de mim.
Eu virei bem devagar e olhei para ele com uma careta.
_Isso não foi uma afirmativa, foi só uma garota desesperada pelas brincadeiras, não quer dizer que seja verdade,..._Eu fui me explicando.
_Ta, vou fingir que não ouvi._Ele falou.
_Obrigada._Todos começaram a rir.
As meninas me levaram até um lugar onde os candidatos a batismo estavam se preparando. O lugar estava muito animado. Montaram um pequeno palco no campo e os músicos estavam afinando os instrumentos. Entramos na tenda e havia umas trinta pessoas com túnicas brancas. Eu também vesti uma. E então anunciaram o inicio do culto todos se sentaram nas cadeiras organizadas na tenda. O pastor deu início falando sobre a grandeza desse momento e uma oração. O culto seguiu e chegou o momento em que eu e todos no lugar esperamos. Fizemos uma fila, primeiro as mulheres e depois os homens, e enquanto a banda tocava cada três candidatos entravam no rio e eram mergulhados pelos pastores. Chegou a minha vez e as meninas chegaram bem perto com as câmeras para tirar fotos. Eu vi Dona Lúcia abraçar minha mãe e ela sorriu para mim. Escutei as palavras ditas pelos pastores e então eu imergi. Eu estava alegre. Minha alma estava alegre. Pelo segundo que fiquei lá em baixo só conseguir dizer “obrigada Jesus”. Quando saí estava falando algo que não entendi, e as lágrimas de gratidão não paravam de descer. Me sentia leve, super leve na verdade, como uma pluma. Eu vi minha mãe chorando, uma senhora me puxando para fora, e as meninas sorrindo vindo até mim.
_Líli!_ Elas me abraçaram.
_Meninas vocês vão se molhar!
_Líli. Você não percebeu o que aconteceu? _Júlia me perguntou.
_O que?_ Eu disse ainda com lágrimas nos olhos.
_Você recebeu o batismo com o Espírito Santo._ Letícia me informou.
Eu lembrei que a uns dois meses eu aprendi sobre o batismo com o Espírito Santo. Aprendi que ao receber o batismo, não o de imersão mas o que Deus nos enche do seu espírito, falamos outra língua que não entendemos. Recebemos o dom de línguas que é o sinal desse batismo. As palavras simplesmente começam a sair da nossa boca e nós temos a alma renovada por isso. É a nossa própria alma se manifestando através de nós, falando com Deus ou com outra pessoa, nesse caso precisasse de alguém que tenha o dom para interpretar. Eu fiquei muito feliz por finalmente isso ter acontecido comigo. Eu as abracei mais ainda, abracei os pais delas, minha mãe e Miguel. Depois de ter molhado todo mundo eu fui com as meninas me secar e trocar de roupa. Depois que todos estavam batizados o pessoal fez uma grande churrasqueira e começaram a assar o churrasco. Eu sentei em um desses balanços grandes de madeira tipo banco de praça que tinha um pouco afastado e fiquei olhando. Era uma grande festa, todos estavam alegres e eu estava feliz por minha mãe estar participando de tudo isso, queria que meu pai e meu irmão pudessem participar também. O dia não estava muito quente e não me impediu de sentar ao sol. O clima estava perfeito para mim e eu apoiei minha cabeça para trás com os olhos fechados sentindo o calor do sol no rosto e o meu cabelo secando.
_Posso te fazer companhia?
Eu abri os olhos e Miguel estava parado na minha frente com as mãos no bolso. Demorei para reconhece-lo, a luz do sol vinha por traz dele formando raios de luz em volta. Era como um anjo com raios de sol. O meu anjo que estava sempre cuidando de mim.
_Será que é possível?_ Eu deixei escapar com os olhos meio fechados por causa do sol.
_Será que é possível o que?_ Ele sentou ao meu lado.
_Será que é possível você ser o meu anjo?
_Eu sou o seu anjo._ Ele afirmou. _Como você é o meu.
_Eu não posso ser anjo de ninguém.
_Meu Deus, então sentei com o anjo errado._ Ele brincou olhando em volta. Eu empurrei ele e a gente ficou se olhando por um tempo.
_Você é tão especial pra mim. Eu nunca tive uma amiga com que eu pudesse me abrir tanto e me sentir tão bem como você._ Ele disse olhando para os pés que estavam esticados a frente balançando o balanço.
Eu olhei pra ele um pouco mais séria.
_Então eu sou o seu anjo._Eu disse.
_Viu, você é._ Ele chegou mais perto e me deu um beijo na testa.
_Gente vocês querem jogar vôlei?_O Renan chamou a gente.
_Quer?_Eu perguntei para o Miguel.
_Vamos.
Fizemos um time feminino e um time masculino. Jogamos a manhã inteira até que a comida estivesse pronta. As meninas ganharam. Olhei de longe e a minha mãe já estava super enturmada com as mulheres. Fizeram duas mesas muito compridas e todos nos sentamos para comer. Minha mãe estava do meu lado e as meninas do outro, Miguel e os pais na frente. Todos contavam histórias engraçadas enquanto comíamos e minha mãe estava muito feliz. Depois do almoço descansamos um pouco e cantamos, fizemos várias brincadeiras e no fim do dia estávamos muito cansados. Nos despedimos de todos e voltamos pra casa com dona Lúcia e seu Paulo. Minha mãe e Lúcia ficaram muito amigas no passeio e deram um grande abraço de despedida. Me surpreendi ao ver minha mãe dizer que iria na igreja comigo, eu fiquei felicíssima. Quando entramos em casa havia um papel picado no chão. Era o bilhete que deixamos para o meu pai contando toda a situação.
_Será que ele está em casa mãe?
_Provavelmente não._ Ela me abraçou._ Não se preocupe. Ele não pode te impedir de ir na igreja.
Realmente ele não estava. Apesar de ficarmos preocupadas estávamos alegres pelo dia maravilhoso. Ligamos para o meu pai porém ele não atendia. Tomamos um banho demorado, vestimos nossos pijamas e inventamos sanduíches enormes com tudo que temos direito. Subimos para o quarto dela e ligamos a TV em desenhos animados. Era uma noite só para nós.
_Líli, o que há entre você e o Miguel.
_O que? Nada mãe, como assim. Nós somos amigos. Ele é o meu melhor amigo._Eu disse sinceramente tentando engolir o pedaço mordido do sanduíche.
_Aham. Sei. Você não percebeu ainda né?_ Ela me disse.
_Não percebi o que?_ Eu não entendi.
_Que você esta encantada por ele.
_Eu?_ Eu fiquei com a boca aberta.
_Sim, você está._Ela me respondeu.
_Mãe, eu não sei, eu estou muito confusa._ Eu deitei minha cabeça no ombro dela._ Eu tenho medo.
_Medo de que?
_Eu não sei.
Minha mãe começou a rir.
_Você já se apaixonou antes filha?
_Se isso é paixão, então não._ Eu declarei.
_A minha filhinha ta apaixonada!_ Ela falou e eu fiquei vermelha._ É normal ter medo.
_Mãe tem certeza que você quer continuar falando sobre isso?_ Eu disse constrangida. Nunca tinha falado sobre essas coisas com a minha mãe.
_Ta bom vamos olhar o desenho._ Ela disse dando uma mordidona no sanduíche dela.
Nós ficamos um tempo olhando para a TV.
_Mãe. O que você foi fazer naquele dia em que eu saí para ver a cidade?
A expressão dela mudou.
_Fui seguir o seu pai._ Ela declarou.
_O que? Tipo detetive?
_Sim.
_Ai mãe, e você descobriu alguma coisa?
_Sim._ Ela só falou isso. Eu vi pelo jeito com que ela falou que era só isso que iria dizer.
_Desculpa por ter perguntado mãe. Seja o que for isso te deixou triste.
Ela conteve as lágrimas e eu dei um beijo no rosto dela.
_Não vamos nos abalar._ Ela disse._ Essa é uma noite só nossa._ Ela me deu um beijo também.
_Mãe, a Júlia perguntou se eu quero fazer minha festa de dezoito anos junto com a dela de quinze. O Que você acha? Será que tem como?
_Eu acho que sim. Podemos organizar isso.
_Obrigada mãe.
Continuamos assistindo TV até que ela dormiu. Eu desliguei a TV. E a ajeitei como ela fazia comigo quando era pequena.
_Boa noite mãe._ Eu dei um beijo na testa dela.
Escovei os dentes e fui para o meu quarto. Deitei na cama e o celular tocou.
_Alô?_ Eu atendi.
_Oi._ Meu Deus! Era o Miguel.
_O...Oi!_ Eu disse.
_Como você está?
_Bem, muito bem na verdade. E você?
_Também. Você já estava dormindo? Eu te acordei? Eu não queria...
_Não eu não estava dormindo. Na verdade estava deitando.
_Se você quiser dormir eu desligo.
_Não, por favor._ Eu meio que implorei sem querer.
_Ta bom então. Vai na aula amanhã né?
_Sim vou. Eu tenho prova.
_Estamos na reta final né?
_Estamos.
_Já falou com os teus pais sobre a faculdade?
_Ainda não.
_Agora você pode entrar no grupo de coreografia lá da igreja.
_É verdade. Nossa eu estou tão feliz. Só queria que o meu irmão estivesse aqui e que o meu pai aceitasse tudo isso.
_Eu queria conhecer seu irmão.
_Você iria gostar muito dele.
_Você tem falado com ele?
_Raramente, faz muito tempo que a gente não conversa mesmo.
_Você sente muito a falta dele né?
_Muito.
Nós ficamos conversando por um tempão. Falamos de coisas sérias mas as besteiras sempre vinham involuntariamente. Eu adorava falar com ele, rir com ele, estar com ele. Quando falava pelo telefone tinha vontade de estar perto. Eu podia realmente estar apaixonada, mas tinha medo, de todos os meus quase dezoito anos vividos eu nunca tinha sentido nada como isso. Ele estava realmente me conquistando? E se ele não estava sentindo a mesma coisa? E se ele só queria a minha amizade e eu estava entendendo tudo errado? Afinal nos éramos muito amigos. Naquela noite quando desligamos o telefone já marcavam duas horas. Logo após recebi uma mensagem dele dizendo “Acho que quebramos o nosso recorde”. Eu ri sozinha e dormi. Na manhã seguinte vi que ele estava com sono como eu.
_Por que essa cara rapaz? A noite foi longa?_ Eu perguntei pra ele e as meninas ficaram sem entender.

Ele bocejou e bagunçou o meu cabelo.






Capítulo - 12
Eu posso dançar!

No fim de semana seguinte eu e a Júlia fomos falar com a líder a Evelin. Ela fazia faculdade de dança, dava aula na CPL e era líder do grupo de coreografia. Nós já tínhamos conversado bastante antes e ela disse que eu poderia participar quando me batizasse. Primeiro ela disse que seria bom que eu fizesse as aulas na CPL e me deu os valores se eu quisesse entrar na escola. Decidi fazer as aulas e ela falou que se eu já me sentia pronta poderia começar a ensaiar com o grupo para ir pegando as coreografias. Marcamos meu primeiro ensaio para a terça feira e na segunda eu iria fazer minha matrícula na escola. Júlia e eu saímos pulando de lá de tão alegres que ficamos. Quando chegamos em casa contamos para a minha mãe que também ficou feliz por mim. A Júlia precisava ir embora eu me ofereci para acompanhá-la   . Quando chegamos a Júlia se encarregou de gritar para todos que eu ia entrar no grupo.
_Isso merece uma comemoração._Disse a dona Lúcia.
_Sorvete!_ Miguel falou levantando-se do sofá.
Todos nós fizemos um brinde com as taças de sorvete. Incrível como eu me sentia em casa. Após algumas horas conversando com a família me levantei para ir embora e não me atrasar para o culto, minha mãe iria comigo dessa vez.
_Você quer que eu te leve? _Miguel perguntou.
_Não obrigada. Eu quero ir caminhando. _Isso não era totalmente a verdade.
_Eu vou caminhando com você então.
_Então ta.
Nós saímos e eu pude ouvir alguns sussurros ficando para trás. Começamos a caminhar bem devagar pela rua, sem pressa nenhuma.
_Então nós vamos na mesma escola, na CPL, na igreja, entre outras coisas. Você vai enjoar de ver a minha cara._Ele falou.
_Como se eu conseguisse enjoar. O senhor é o meu anjinho lembra?_ Eu disse empurrando ele de lado com o quadril.
_E os anjinhos tem que ficar perto né?_ Ele respondeu.
_Sim.
_Então ta. Vou sempre estar ao seu lado. Você tem cola aí? Quem sabe fica mais fácil se a gente colar?
_Boa idéia. Aí a gente pode virar uma dupla de circo. Você toca e eu danço._ Nós rimos muito.
_E você vai fazer a festa com a Júlia então?
_Vamos sim. Estamos organizando. Amanhã a gente vai sentar pra conversar a respeito.
_Vai ser legal.
_Vai.
Ficamos um tempo em silêncio escutando os passos.
_Ta calor hoje né?_ Ele quebrou o silêncio.
Eu comecei a rir.
_O que foi? Ele perguntou sem entender.
_Essa foi uma daquelas perguntas tipo “será que chove?”
_Eu acho que sim._ ele alegou.
Eu fiquei rindo e ele ficou olhando para mim.
_Você está perdendo o sotaque sabia?
_Eu estou?
_Sim.
_E você prefere a Líli com sotaque ou a Líli sem Sotaque?
_Eu prefiro a minha Líli anjo, de qualquer jeito desde que esteja perto de mim.
O meu coração parecia ter desmanchado. Então ele parou de caminhar.
_Por que você parou?_ Eu perguntei.
_Porque chegamos na sua casa.
Eu olhei pra trás e lá estava ela, a metida da casa que tinha que aparecer tão rápido.
_Então ta, você quer entrar?
_Querer eu queria mas não posso. Tenho que me arrumar.
Ele me deu um beijo no rosto um pouco demorado para o normal e eu quase caí.
_Até o culto anjinho._Ele foi saindo e eu fiquei lá parada com a cabeça nas nuvens.
Entrei em casa e fui subindo a escada até que escutei um berro.
_Líli!_Minha mãe falou.
_Ai, que mãe?
Ela estava rindo sem conseguir parar.
_O que houve mãe?
_Estou te chamando desde que você entrou. Você ta parecendo uma bobona. Cuidado que vai pingar baba no chão.
_Vai rindo, vai rindo. A Senhora não vai se arrumar?
_Vou sim.
Nós subimos e nos arrumamos para sair.
O culto estava uma benção, minha mãe adorou ter ido e reencontrado os amigos que fez no batismo. Ela se comprometeu de ir comigo sempre e eu fiquei muito feliz pela decisão dela. Após o culto fomos para a casa, meu pai, por milagre, estava lá sentado no sofá assistindo alguma coisa na televisão.
_Oi pai._ Eu disse sentando ao lado dele.
_Oi. _Ele me respondeu um pouco indiferente e a minha mãe foi para a cozinha.
_O senhor quer conversar? Faz tempo que eu não falo com o senhor.
_Não estou afim. Quero ver esse programa.
_É que eu queria te contar tanta coisa, eu...
_Para Líli, me deixa, eu não estou conseguindo escutar. _Ele disse aumentando o volume da TV. Eu me contive para não chorar. Ele nunca falou assim comigo.
Eu me levantei, peguei a minha bolsa que estava em cima da mesinha e enquanto fui subindo a escada ouvi minha mãe gritando “Porque você fez isso?”. Foi o suficiente para começar uma nova briga. Deitei na minha cama e liguei para o Miguel aos prantos.
_Alô? _Ele atendeu.
_Por favor, fala comigo. _Eu pedi chorando.
_O que aconteceu Líli? Por que você está chorando? _Ele perguntou assustado.
_Só fala comigo. Não quero prestar atenção na briga. A tua voz me deixa mais calma, eles estão fazendo muito barulho._ Eu disse soluçando.
_Calma Líli. Onde você está?
_No meu quarto.
_Você quer falar sobre o que aconteceu?
_Eu queria conversar com o meu pai. Ele gritou comigo, a minha mãe gritou com ele e os dois começaram a brigar feio.
_Você quer que eu vá até aí?
_Não. Você não precisa presenciar isso.
_Mas eu tenho que fazer alguma coisa.
_Só fala comigo.
_Ããã,...a formatura! A gente vai fazer um jantar aqui em casa no dia, você vem né?
_E você tem duvida? Claro que eu vou.
_Bom saber, porque a senhorita esta intimada. Se não vier vou te buscar.
_Ta ok então.
_E por falar em buscar, você não está sentindo falta das minhas caronas para a igreja?
_Mas você me dá carona pra tudo. Só para a igreja que não está sendo necessário. _Eu ri.
_Ah, então isso quer dizer que não sente a minha falta. _ Ele disse. Eu queria dizer que sinto. E que meu dia fica triste todas as vezes que ele vai embora. Mas não era a hora.
_Você sabe que não é verdade. _Eu falei.
_Eu sei?
_Não sabe?
Nós ficamos rindo e conversando por um tempo até que a minha voz demonstrou cansaço. Ele perguntou se as coisas estavam mais calmas. Eu já estava até me esquecendo, se não fosse pelos vestígios das lágrimas que correram. Eu respondi que sim, que se eles não tivessem se matado já estavam dormindo. Ele disse pra eu não me preocupar, que quanto maior a luta maior a vitória. Me deu um boa noite cheio de ternura e eu pude dormir bem melhor.
No dia seguinte após a aula fomos até a CPL para fazermos a minha matrícula. Vi meus horários e se quisesse já podia começar. Voltamos para a casa e as dezenove horas voltamos para a aula. A Letícia foi para a sua sala e Miguel para a dele. Eu faria um teste com os professores para ver em qual nível eu estava. A Júlia pediu para ficar e assistir ao meu teste e eles autorizaram. Uma das professoras me passou um exercício e eu acompanhei sem problemas. Mais dois professores entraram na sala. Eu estava incrivelmente feliz por poder estar ali. A meses não tinha uma aula e eu estava realizada em qualquer nível que eles me colocassem hoje. Outro professor me passou outro exercício, e outro, e outro. A professora que entrou na sala com ele chegou mais perto e passou mais três, outros dois de centro e dois de giros.
_Muito bem dona Liliana. Você foi bem. Muitíssimo bem por sinal. Desde que idade você tem aulas?
_Desde os quatro anos. _Eu respondi.
_Muito bem. Se os meus colegas concordarem você vai facilmente para o último nível.
_Sério? _Eu perguntei sem acreditar.
_Sim. Te acompanharemos até a sala._ Eu voei em cima da professora e abracei. Todos começaram a rir.
_Calma, guarde energias para a aula._ Ela disse rindo.
Nós fomos até a sala e eu dei “oi” para as meninas. Eu conhecia quase todas, algumas eram de outros lugares. Elas, como eu, se espantaram por eu já ir para o último nível. A aula foi muito legal, apesar de muita disciplina a professora era engraçada. Na saída nos encontramos no corredor, eu voei também no pescoço da Letícia e do Miguel e contei tudo. Eles ficaram felizes pela notícia. Nós fomos para a casa, eu me despedi deles e entrei. Estava ansiosa pelo ensaio do outro dia. Fui para a aula de manhã muito alegre por eu poder estar participando de tudo que tinha sonhado nesses meses. Meus amigos notaram e também estavam contagiados pelo meu bom humor.
_É muito legal te ver assim Líli._Letícia me disse no intervalo. _Está quase tão maluquinha quanto eu. _Ela riu.
_Líli, precisamos planejar a nossa festa. _Júlia chegou com caderno e caneta em mãos.
_Nossa, mas já? O Matheus perguntou.
_Claro. Essas coisas levam tempo para serem organizadas. _Ela se defendeu. _E eu também não vejo a hora de começar.
_A gente vai poder tocar? _O Lucas perguntou.
_Com certeza. Se a Líli concordar. _Júlia respondeu.
_Claro que sim. Vai ser muito legal.
_Líli, o que você acha de fazermos uma festa a fantasia. Acho que seria super divertido. _ Júlia perguntou.
_Nossa eu acho que seria sim.
_Ta decidido! Festa a fantasia. _Renan falou.
_Fica quieto. Não é você quem decide. Somos nós, as aniversariantes. _A Júlia falou então todos de repente começaram a opinar.
No fim já tínhamos decidido o lugar, a decoração, fotos e filmagem, buffet e que seria a fantasia. A noite fui com Júlia para o ensaio. Todos me receberam bem e eu consegui pegar quase todas as coreografias. Haveria uma apresentação grande de natal que envolveria todos os ministérios, fiquei feliz pois iria poder participar. A Evelin passou todo o cronograma de ensaios com banda e teatro, e como seria a apresentação. Seria como um musical. Haveria teatro, dança, música e no fim a pregação. Todos ficaram empolgados e quando saímos da igreja estavam todos comentando como isso era um grande ato evangelístico e que muitas vidas poderiam ser salvas. Daí por diante a expectativa aumentava, ensaiávamos de uma a três vezes por semana. 






Capítulo - 13
Formatura


Os meses passaram e estávamos na primeira semana de dezembro. A atenção agora focou-se um pouco mais na formatura. Eram muitas festas para pensar e a minha cabeça já estava girando. Por uma parte eu gostava desses momentos porque me faziam esquecer das discussões dos meus pais que vinham piorando e do meu irmão que simplesmente parou de dar notícias. Liguei para ele várias vezes para convida-lo para o meu aniversário mas estava sempre ocupado ou não atendia. Por fim chegou o fim de semana da formatura. As meninas e eu saímos para comprar um vestido para a formatura, essa parte foi divertida, ficamos o dia inteiro andando pela cidade. Depois que Letícia e eu escolhemos fomos para a casa dela. Nos atiramos na cama dela com sacolas e tudo cansadas de tanto caminhar.

_Líli, dorme aqui com a gente hoje. _Letícia pediu.
_Mas eu não trouxe nada.
_Ah, mas tem alguém que com certeza busca as suas coisas lá. O Miguel pode passar lá na vinda do trabalho.
_Então eu tenho que ligar para a minha mãe.
Peguei o meu celular e liguei para minha mãe pedindo para dormir na Letícia, no inicio ela meio que hesitou em concordar mas depois deixou. Eu fiquei preocupada. Por que será que ela não concordou de inicio como sempre fez. Provavelmente não queria ficar sozinha com meu pai e depois lembrou que eu não precisava estar lá para escutar tudo de novo. Combinei que o Miguel passaria lá para pegar algumas coisas minhas e eu larguei o telefone devagar.
_O que foi? _A Júlia perguntou.
_Minha mãe estava estranha.
_Será que está tudo bem?
_Acho que na verdade está tudo na mesma e ela esta cansada disso.
Ligamos para Miguel e ele trouxe minhas coisas. Aquela noite eu dormi preocupada e eles perceberam o que eu estava sentindo e tentaram me confortar. Por fim a semana passou e chegou o dia da formatura. Usávamos aquelas togas enormes que escondiam o vestido. A Letícia estava furiosa por isso mas não se abalou e estava alegre como sempre. Minha mãe estava lá. Meu pai por milagre também, só que com uma carranca enorme que espantava qualquer um. Sentamos em ordem alfabética Letícia acabou do meu lado e Miguel na fileira de trás.
_O seu pai está muito animado. _Miguel brincou olhando para baixo onde os parentes e amigos estavam. _Você vai me apresentar depois?
_Você tem coragem de chegar perto dele. _Eu perguntei.
_Claro. Eu vou guardado em Deus. _Ele brincou.
_O meu pai é gente boa. Até muito. Só que ultimamente ele anda totalmente mudado.
_Eu tenho certeza que isso vai mudar. Não se preocupe. _Letícia falou.
Começaram a chamar aluno por aluno, cada um com uma música escolhida. Eu não poderia deixar essa passar. Escolhi a mesma música do avião. A mesma que ouvi aquele dia na igreja. Chamaram a Letícia e todos fizeram a maior festa, me chamaram e eu olhei pra baixo, os meus amigos começaram a gritar o meu nome “Líli, Líli!”. Meus pais se espantaram ao ver o quanto gostavam de mim. Meu pai ficou com o olho arregalado. Eu peguei o canudo apertei a mão dos professores e voltei para o meu lugar. No fim de toda a cerimônia jogamos nossos chapéus para cima e nos abraçamos.
_Líli. Você vem até nossa casa né? _Dona Lúcia perguntou. _Você e seus pais.
_Vou ver como está o humor deles dona Lúcia. Ainda estou espantada pelo meu pai ter vindo até aqui.
Todos fomos até meus pais. Minha mãe me abraçou e me deu os parabéns emocionada. Cheguei bem na frente do meu pai que estava com os olhos vermelhos.
_Oi pai. _Eu disse somente.
_Oi. _Ele disse me dando um abraço meio sem jeito. _Parabéns.
_Vamos fazer um jantar para comemorar. Vocês vem conosco não é? _ Dona Lúcia falou para eles.
_Sim eu vou. _Minha mãe respondeu na hora.
_Eu não sei. _Meu pai disse como se tivesse um milhão de outras coisas mais importantes para fazer.
_Por favor seu Carlos! _A Letícia praticamente implorou para ele.
_Ok, eu vou. _Ele se rendeu.
Eu Fiquei muito feliz por ele ter aceitado. Nós entramos nos carros e fomos direto para lá. Conosco foram mais todos os nossos amigos fazendo uma grande festa. Ao chegar lá todos começaram a ajudar em alguma coisa. Seu Paulo teve o maior trabalho, estava dando tudo de si para que meu pai se sentisse bem e a vontade ali. Não estava dando muito certo. Em pouco tempo tudo estava pronto. Os mais velhos se sentaram na mesa e os mais novos espalhados pela casa. Todos começamos a comer e parecia que a fome era enorme. Seu Paulo e os outros puxavam conversa com o meu pai mas ele não fazia questão de que os assuntos durassem por muito tempo. Depois de algumas horas meu pai não conseguiu mais disfarçar o incomodo apesar de todos serem simpáticos com ele. Ele pegou o carro e saiu. Eu fiquei sentada na varanda olhando o carro ir embora.
_As trevas não tem comunhão com a luz. _Miguel disse sentando-se ao meu lado.
_O que? _Eu disse sem entender o que ele tinha dito.
_As trevas não tem comunhão com a luz. _Ele repetiu. _Não é ele quem se incomoda em estar em nosso meio Líli, e sim o que está nele.
_Você ta certo. Eu não posso culpa-lo pelas atitudes que ele tem. Há algo maior que ele o dominando. Ele não tem Jesus, por isso não tem forças para lutar contra o que faz mal para ele.
_Você está absolutamente certa. Acho que você já pode substituir o meu pai nas escolas bíblicas. Aí ele tira umas férias.
_Até parece. _Eu falei.
_Você está se saindo um verdadeiro exemplo sabia.
_Estou?
_Sim, daqui a pouco já estará pregando por aí.
_O que? Não, eu morro de pânico. Imagina eu lá em cima falando no microfone. Prefiro ficar invisível.
_Tarde demais minha amiga. Você escolheu esse caminho. Você tem que espalhar o que Jesus fez por você.
_Eu sei mas eu fico muito nervosa. Eu já comecei a tremer só de pensar olha. _Eu mostrei minhas mãos que tremiam como vara verde.
_Meu Deus! E como você pode ter tanto pânico de microfone? Você dança na frente de toda a igreja e não tem vergonha.
_Eu sei, é estranho. Mas eu acho que cada um se sai melhor em uma coisa. Se eu me saio melhor dançando eu não vou ter medo de dançar. Porém falando para uma multidão, por exemplo, não me sentiria bem porque não é uma coisa que eu faça realmente bem. Entende?
_Certo. E você não acha que Deus pode te capacitar? Fazer outro dos muitos milagres que ele tem feito por você?
_Você acredita nisso? _Eu perguntei.
_Você acredita nisso? _Ele Rebateu.
_Bem,...Sim eu acredito. _Eu admiti.
_Então ele vai tirar esse medo de você._Ele me abraçou esfregando o meu braço para eu parar de tremer._ Você vai falar tanto que alguém vai ter que arrancar o microfone de você. Talvez eu até terei chance de usar aqueles tomates.
_Não me diga que você guardou os tomates. Eles já devem estar podres. _ Eu devolvi a brincadeira.
_Melhor ainda. _Ele disse e eu dei um empurrão nele.
_Você ainda não conseguiu falar com os seus pais sobre a faculdade não é?_ Ele me perguntou depois de um tempo.
_Não. Acho que não vou poder fazer. Se eu não amarrar os dois juntos olhando direto pra mim e com os ouvidos bem abertos não vou conseguir falar nada.
_Tenta pelo menos falar com a sua mãe. _Ele me pediu.
_Você está mesmo motivado não é?
_Estou motivado a fazer com que você não desista dos seus sonhos._ Ele olhou para mim como se estivesse me informando que não iria deixar eu desistir.
Alguém limpou a garganta atrás de nós nos avisando que estava ali.
_A...Oi Léti._ Nos afastamos um pouco.
_Os pombinhos querem nos dar a honra de sua presença nas fotos. Já estão servindo bolo.

Nos levantamos depressa sem conseguir disfarçar o constrangimento causado pela nossa querida maninha.


Capítulo - 14
Natal dolorido, um anjo para curar

As semanas após a formatura foram conturbadas e atarefadas. Houveram mais ensaios que nunca, montagem de todo o cenário, últimos ajustes de figurino de banda, teatro e bailarinos. As crianças levaram meses ensaiando para participar também. Estava tudo uma correria para ficar pronto a tempo. O evento seria no dia vinte e cinco ao ar livre em um campo quase em frente a igreja, estávamos ansiosos. Um dia de manhã acordei disposta a montar a arvore de natal. Alguém naquela casa tinha que ter pelo menos um pouquinho de espírito natalino. Procurei algumas caixas da mudança que não haviam sido abertas e achei a de artigos de natal. Arrastei a caixa para a sala ainda de pijama.
_O que está fazendo Líli? _Minha mãe quis saber.
_Eu....mmm...estou tentandooo....rrrrr....arrastar essa caixa.
_Que dia é hoje?
_Hoje é dia vinte de dezembro mãe, daqui a pouco é natal.
_Puxa vida, estou totalmente perdida no tempo.
_Não esquenta mãe, eu vou decorar tudo que eu puder.
_Eu nem planejei nada. O pior é que seus tios disseram que iam viajar. Com eles não vamos poder passar a véspera.
_Não tem problema. Passamos eu você e o pai.
_Uau. Que programa de natal. Já estou vendo o seu pai com aquela cara colado no sofá. E nós duas tentando ter um natal feliz.
_Ah mãe, não custa nada tentar.
_Ok então. Venha tomar café que depois eu ajudo você.
Depois do café sentamos na sala e começamos a abrir a caixa. Estava cheia com um pinheiro de natal, luzes e enfeites. Começamos pela árvore montamos e decoramos ela toda depois colocamos as luzinhas em alguns pontos da casa. Ficou muito bonito e natalino. Depois de tudo arrumado lembrei que ainda estava de pijama. Subi e tomei um banho para tirar todo aquele pó das coisas guardadas de mim. A noite fui para a aula na CPL com Júlia, Letícia e Miguel. Depois da aula estava guardando as minhas coisas e a professora pediu para que eu passasse na sala da diretoria para falar comigo. Eu estava nervosa, será que eu tinha feito algo de errado? Entrei na sala e ela pediu que eu sentasse.
_ Bom Líli. _ Ela me falou. _ Eu te chamei aqui por que quero te fazer uma proposta.
_ O que é professora? _ Eu perguntei preocupada.
_Temos visto que você é muito aplicada. Já veio com ótima técnica e disciplina. Está praticamente pronta, não que um dia estejamos, mas o que eu quero te dizer é que estive conversando com os outros professores. Estamos precisando de alguém para dar aula para o baby class e para o primeiro ano de ballet. Os professores são poucos e estão sobrecarregados. Então pensamos em você para trabalhar aqui.
_ Como? A senhora esta pedindo para que eu trabalhe aqui? _ Eu disse espantada.
_ Sim, foi o que eu disse. Você poderá continuar com as aulas normais a noite e durante o dia trabalha aqui. Você no momento é a mais indicada e queríamos um aluno daqui, não trazer alguém de fora. É claro, você ira receber por isso.
_ Isso é maravilhoso. _Eu estava super agitada.
_ Então você está dentro? _ Ela perguntou.
_ Com certeza. _ Estava muito feliz.
_Então você pode começar em fevereiro. Ainda não temos o calendário de aulas mas eu te passo assim que arrumarmos.
_ Ta ok então.
_ Muito bem. Por enquanto era isso e bem vinda em meio aos professores._ Ela apertou minha mão.
Sai da sala meio sem noção. Meus amigos vieram até mim.
_ O que aconteceu lá dentro? _ Letícia quis saber.
_ Vocês não vão acreditar.
_ Você foi suspensa. _ Júlia disse.
_ Vira essa boca pra lá menina. A Líli por acaso tem alguma atitude para ser suspensa? _ Miguel me defendeu.
_ Eu fui convidada para dar aula para as crianças aqui na CPL.
_ Meu Deus. Que legal. _Letícia se jogou para me abraçar pulando.
_ Parabéns. _ Júlia e Miguel me abraçaram também e eu fiquei lá dentro esmagada.
Fomos correndo para minha casa para contar à minha mãe sobre meu novo emprego. Ela ficou estonteante com a notícia. Miguel e as meninas tinham que ir, acompanhei todos até a porta e Miguel puxou o meu braço.
_ Agora é a hora. _ Ele disse apenas e olhando bem fundo nos meus olhos.
Eu assenti com a cabeça. Sabia do que ele estava falando. Eu tinha que falar com a minha mãe sobre a faculdade. Eles saíram e eu fiquei na porta tentando tomar coragem. Caminhei até o sofá onde minha mãe estava.
_ Mãe, preciso falar com você. É um assunto muito sério. _ Eu disse.
_O que aconteceu filha? Senta aí. _ Ela apontou para o sofá.
_Bom, é o seguinte. A muito tempo eu tenho um sonho, e agora com essa oportunidade que me surgiu em trabalhar na CPL eu vejo que esse sonho vai servir para eu me aperfeiçoar no trabalho que eu realmente quero para mim.
_ E a senhora vai me dizer que sonho é esse? _ Ela me perguntou.
_ Eu não falei? _ Eu perguntei.
_ Não.
_ A ta. Eu quero fazer faculdade de dança. _ Preparei os meus ouvidos para ouvir as reclamações. Houve silêncio.
_ O que você está fazendo Líli? _Ela me olhou assustada.
Eu percebi que estava com os olhos apertados e as mãos nos ouvidos.
_ Eu achei que você iria brigar comigo.
_ E por que você achou que eu iria brigar?
_ Não sei. Você e o pai nunca foram a favor disso.
_ O futuro é seu Líli. As escolhas são suas. Eu não posso escolher isso por você. Está certo que eu me preocupe, afinal eu sou a sua mãe. Mas você parece que já tem tudo planejado. Eu não vou me opor. Vou apoiar você.
_ Obrigada mãe. _ Eu a abracei. _ Agora tenho que fazer o vestibular, o prazo está acabando.
_ Sim e não esqueça que tem que avisar o seu pai.
_ Ai, não me lembra disso. Ele vai se opor com certeza.
_ Ele não esta em condições de se opor a qualquer decisão que você tome.
_ É. Você ta certa.
Quando subi o celular tocou. Era o Miguel.
_ E aí? Falou com a sua mãe? _ Ele me perguntou.
_ Falei sim.
_ E como foi?
_ Na verdade achei que seria muito mais difícil. Ela me apoiou. Agora você tem uma tarefa.
_ Eu não avisei você? Espera, que tarefa?
_ Vai ter que me ajudar a estudar. Eu não me preparei. Agora o prazo de inscrição para o vestibular já está acabando na maioria das universidades. E não são todas que tem esse curso. Você se importa de me ajudar?
_ Vai ser um prazer te ajudar. Essa semana está meio lotada, mas podemos estudar no horário de almoço e depois das aulas se ficar bom para você.
_ Não fica difícil para você? Eu não quero tomar o seu tempo nem atrapalhar em nada.
_ Você não me atrapalha. Estará me fazendo um favor.
_ Eu estarei te fazendo um favor?
_ Sim, vai tornar os estudos mais divertidos.
_ A e eu sou diversão agora?
_ Fazer o que? Eu me divirto com você.
_ Bom saber. Vou ser mais séria.
_ Não. Eu gosto de você assim. Se mudar pode esquecer de estudar.
_ Eu não vou mudar. Você sabe que eu não consigo.
_ Ainda bem.
_ E o seu pai? Como você vai contar para ele?
_ Ainda não sei. Eu acho que ou ele vai ter um troço ou não vai nem dar bola.
_ Qual seria a melhor opção?
_ Nenhuma das duas. Eu prefiro o meu pai de antes. De quando eu era pequena. O que conversava comigo, que estava sempre pronto para a família, que me dava conselhos, que amava a minha mãe.
_ Você sofre muito com isso não é?
_ Muito.
_ Se eu pudesse fazer tudo acabar, mas essas coisas levam tempo. E não serei eu quem vai acabar com o seu sofrimento. Eu posso apenas ameniza-lo.
_ Você já faz muito. Obrigada por estar comigo. Por me ouvir mesmo que só fale besteira.
_ Esse é o meu trabalho. Eu ainda sou o seu anjo não é?
_ Com certeza. Não irá se livrar de mim tão fácil.
_ Bom saber. Então ta. Vou te deixar dormir. Boa noite.
_Boa noite.
A semana da véspera do natal foi cheia. Ensaios, estudos e aula. Uma correria. Miguel e eu nos encontrávamos todos os dias no intervalo do estágio no hospital para almoçar e estudar. Ele era muito inteligente e eu pude entender facilmente tudo com as explicações dele. Finalmente chegou o dia vinte e quatro. Eu e minha mãe passamos o dia preparando coisas para a ceia. Minha mãe estava animada apesar de todas as lutas e eu admirei isso nela. Nos arrumamos como se fossemos a um banquete, arrumamos também a mesa e esperávamos meu pai na sala comendo chocolate e assistindo filmes de natal na TV por assinatura. O telefone tocou e eu fui atender. Era o meu pai dizendo que iria trabalhar a noite toda no restaurante e que voltaria muito tarde, que não era para esperá-lo. Eu desliguei o telefone e avisei minha mãe. Nos sentamos a mesa tentando não nos abalar. Iria ser uma ceia entre mãe e filha. Nos servimos o máximo que pudemos. Dissemos que iríamos encher a cara de comida. Depois sentamos na varanda da casa e relembramos os natais passados. Lembramos de coisas como o Guilherme derrubando o tender no chão e o nosso cachorro Fred abocanhando-o, o pai segurando os presente para cima e nós não alcançávamos e o natal que eu passei com a perna engessada por cair da escada direto no pinheiro. Ligamos para o Guilherme e desejamos um feliz natal. Ele e a mãe ficaram um tempo conversando e eu fiquei deitada com a cabeça no colo dela, sonhando que um dia as coisas poderiam voltar a ser como eram. Pedi para que ela dissesse para ele vir ao meu aniversário. Ele disse que seria difícil mas que iria pensar. Fogos na rua começaram e explodir. Nós olhamos no relógio e era meia noite. Abracei minha mãe e na hora o celular tocou. Letícia, Júlia e Miguel começaram a cantar “bate o sino” e eu não pude conter a gargalhada. Letícia e Júlia me deram um feliz natal e Miguel pediu que elas passassem o telefone para ele. Ele me desejou um “feliz natal e boa noite...meu anjo”. Eu quase engasguei com o Papai Noel de chocolate que estava comendo. Quando já estávamos cansadas o suficiente fomos para a cama. Quando deitei vi que havia um pacote em cima da escrivaninha e corri até lá. Em cima tinha um cartão dizendo “Para a melhor filha do mundo. A sua está quase se decompondo”. Achei estranho e abri o presente, era uma sapatilha de ponta linda e novinha. Corri até minha mãe e agradeci com um abraço. Eu estava ansiosa para o evento do dia seguinte. Pela manhã fui na igreja para ajudar com os últimos preparativos e a tarde voltei para a casa, decidi colocar a roupa da apresentação pois já sabia a correria que seria lá. Vesti o vestido azul brilhante e arrumei o cabelo em um coque com os enfeites comprados pelo grupo para a ocasião. Quando estava pronta para voltar para lá desci e chamei minha mãe para ver se estava pronta também. Ninguém respondeu, saí na varanda e meus pais estavam discutindo.
_ O que está acontecendo? Por que a gritaria? _ Eu perguntei assustada.
_Você não vai nessa porcaria de igreja. _ Meu pai gritou e agarrou o meu braço me arrastando porta a dentro.
_ Não pai. Eu preciso ir. Tenho uma apresentação hoje. _ Eu disse implorando.
_ Você não vai dançar. Você não vai nessa droga de igreja nem vai fazer essa droga de faculdade de dança. _ Ele estava subindo a escada comigo de arrasto.
_Mãe! _ Eu gritei, ela vinha vindo atrás.
_Eu tive que contar Líli. Carlos, solta ela, deixa ela em paz. Isso é muito importante.
_ Importante nada. _ Ele gritou me jogando pra dentro do meu quarto e trancando a porta. _ E você sai da minha frente se não quiser ficar presa também. _ Ele gritou para minha mãe.
_ E você acha que eu não vou abrir a porta? _Ela disse para ele.
_ A chave vai ficar comigo, e você tenta abrir para ver. _ Ele ameaçou.
_ Líli. Desculpa eu não posso abrir a porta. _ Ela disse.
_ Fica tranqüila mãe. _ Eu disse chorando.
Minhas pernas enfraqueceram e eu cai de costas para a porta. Estava tudo arruinado. O pessoal dependia de mim e eu estava presa sem telefone. Meu pai foi além das minhas expectativas. Eu estava deitada no chão apertando a cicatriz que se abria no meu peito. Quando o relógio marcou a hora exata da apresentação eu estava despedaçada. Agarrada ao chão, soluçando. Lá em baixo o meu celular não parava de tocar e eu pude ouvir ele sendo lançado na parede. Umas duas horas depois eu não tinha mais forças, as lágrimas apenas escorriam dos meus olhos para o chão onde estava colado o meu rosto. De repente eu ouvi um pequeno barulho na janela. Usei todas as poucas forças que tinha para levantar e olhar.
_ Miguel? _ O louco do Miguel estava se equilibrando na árvore do lado de fora da minha janela. Eu abri correndo. _ Você está louco? Como entrou aqui eu disse sussurrando.
_ O que aconteceu Líli? _ Ele me abraçou ao ver o meu estado.
_ Meu pai me prendeu aqui e não deixou eu sair. Ele destruiu o meu celular_ Minhas lágrimas voltaram mais fortes ao sentir o abraço reconfortante dele. _ Como você entrou aqui?
_Eu cheguei na porta e o seu pai disse pra eu ir embora, que você estava dormindo e não queria me ver. Aí pedi para falar com a sua mãe e ele disse que eu não podia. Estava voltando quando sua mãe jogou esse bilhete pela janela da cozinha dizendo pra eu subir por aqui se tivesse coragem.
_ Você esta ficando muito inconseqüente sabia? Como vai embora depois? Meu pai vai ver você.
_Eu não pensei nisso na hora. Só queria ter notícias suas. Sua mãe parecia apavorada. Não podia simplesmente não subir.
Nós sentamos na janela. Ele ainda me abraçava. Eu não conseguia o soltar.
_Como estava o evento? _ Eu perguntei.
_Maravilhoso. Doze pessoas aceitaram Jesus. O problema é que você não estava lá.
_ Que bom. _ Tentei demonstrar entusiasmo mas não conseguia esconder a tristeza.
_ Você está linda. Mesmo com a cara inchada de chorar. _ Ele brincou.
_ O que adianta? Ninguém viu.
_ Deus viu. Ele viu todo o seu empenho para a obra e isso é o que importa. Ah, e eu vi também ué!
_ Isso é verdade. _Eu disse recostando minha cabeça em seu ombro.
Ficamos ali por um tempo escutando os sons da casa, da rua e principalmente das respirações.
_ Você está mais calma? _ Ele me perguntou.
_ Acho que sim. Eu só fiquei...meio...decepcionada com o meu pai. Nunca na minha vida eu pensei que ele faria uma coisa dessas. _ Eu declarei. _ Me prender no quarto. Como se eu fosse um cachorro fujão? Estou muito magoada.
_ Eu entendo. Deve ser muito difícil. Seu pai mudou drasticamente de comportamento. Mas você deve perdoar ele.
_ Eu queria tanto que ele entendesse. Eu estou ficando tão cansada. _ Eu falei derrubado o rosto nas mãos.
_ Não perca a fé. Continue acreditando no que Deus já te falou. A sua casa servirá a Ele, pode apostar.
Eu fiquei olhando para ele ainda com o lado do rosto escorado nas mãos.
_ O que foi? _ Ele perguntou.
_ Eu me sinto tão melhor com você me dando força.
_ Estamos aí para isso. _ Ele disse fazendo um gesto de reverencia.
Um bocejo que não pude conter saiu intrometido expondo o meu cansaço.
_ Já está tarde, você tem que dormir. _ Ele falou.
_ Não! _ Eu pedi. Não queria que ele fosse embora apesar do meu sono.
_ Eu tenho que ir. Vai que o seu pai sobe, abre a porta e eu estou aqui. Não ia ser um bom exemplo. E talvez ele me faria pular a janela. _ Ele olhou para baixo se fazendo apavorado com a altura.
_ Ta bom. Não posso te prender aqui comigo. Toma cuidado. _ Eu disse para ele que estava saindo da janela para a arvore.
_ Não se preocupe. Eu sou o “macaco ninja”. Iiiiááááá! _ Ele brincou baixinho fazendo um gesto de caratê e se equilibrando na árvore. Ele se inclinou na janela para me dar um beijo no rosto.
_ Boa noite meu anjinho encarcerado.
_ Se eu não der notícias em uma semana mande uma equipe de resgate. _ Eu devolvi a brincadeira e percebi que estávamos tão perto que podia sentir a respiração dele no meu rosto.
_ Ooookey! _ Eu voei para traz. _ Boa noite. Não vai cair daí. _ Minhas bochechas ficaram quentes e eu não pude esconder meu vermelhão.
_ Ok, Boa noite. _ Ele disse rindo e descendo pela árvore.
Quando ele estava afastado o suficiente para eu não me emocionar demais eu sussurrei (um pouco alto para um sussurro) para que ele tomasse cuidado com meu pai. Ele respondeu com um “pode deixar”, pulando da árvore como um ninja. Correu até o muro onde não podiam enxergar de dentro de casa, escalou o portão, certificou-se de que não havia ninguém para confundi-lo com um ladrão e pulou. Voltei para o meio do quarto e caí em mim. Estava sozinha de novo e trancada. Desmanchei o cabelo tirei o meu vestido e coloquei o pijama. Apaguei a luz, deitei na cama e parecia que o sono tinha desaparecido. Então ouvi a minha porta destrancando e abrindo devagar. Estava de costas para a porta mas pela sombra parecia com meu pai. Decidi não demonstrar sinal de que estava acordada. Ele chegou perto e pareceu que iria fazer um carinho no meu cabelo quando hesitou e recuou. Ele saiu fechando a porta e eu não pude evitar a lágrima que escorreu no travesseiro. Eu sabia que ele não queria ser assim, ele não queria ser mau e através dessa reação pude ver que ele também estava se cansando.




Capítulo - 15
Surpresa na cobertura. Ops!...Uma bomba para me machucar

No dia seguinte do surto do meu pai eu tentei me encontrar com meus amigos normalmente pela manhã. Na verdade nem tão normal, estava triste pelo ocorrido e por não ter comparecido na apresentação. Todas as vezes que um deles comentava a respeito eles notavam a minha tristeza, se cutucavam e tentavam mudar de assunto o mais rápido possível. Podia ver o esforço deles em me deixar feliz, mas por mais que tentassem ainda estava ferida. Letícia teve a idéia de irmos a um parque aquático já que ainda estava bem cedo. No início não tive muita certeza, meu pai não concordaria. Mas eles insistiram e então perguntei para a minha mãe. Ela disse que ele não queria que eu fosse na igreja, e eu não estaria indo na igreja. Ela acrescentou que ele também não precisaria saber com quem eu fui. Perguntei se ela iria ficar bem. É certo que ele não ia gostar da idéia e ia acabar sobrando para ela então a convidei para ir junto. Ela concordou. Pegamos nossas coisas e fomos de carro atrás dos outros que estavam nos guiando. O dia estava quente e divertido, todos estavam tentando fazer com que o meu dia fosse alegre. Eles estavam conseguindo. Me diverti muito naquele dia, assim como todos os que passei com eles, o passeio foi resumido em risadas, brincadeiras, toboaguas e comidas nem tanto saudáveis. No fim do dia voltamos para a casa, meu pai não se importou já que minha mãe foi junto e ele não sabia quem estava lá. Como já era de se esperar meu pai não deixou eu voltar para a igreja. Minha mãe me deu um celular novo o qual meu pai não sabia da existência e que eu mantinha escondido. Assim podia falar com meus amigos. No ano novo meu pai também iria trabalhar no hotel, então minha mãe e eu decidimos passar lá também para a surpresa do meu pai que não gostou nada da idéia. O verão não foi como o do meu antigo lar. Aqui eu só teria o mar a quilômetros de distância. Eu sentia falta de poder andar na areia ou simplesmente ficar sentada olhando as ondas que iam e vinham. A primeira semana de janeiro estava passando lentamente. Foram poucas as vezes que consegui ir a igreja, na CPL igualmente. Expliquei para os professores o que estava acontecendo, e eles entenderam o que eu estava passando e o meu sofrimento. Eles decidiram fazer algo que eu nunca tinha visto. Toda a escola se reuniu para orar pela minha família, através disso mais pessoas foram desabafando o que passavam também com as suas e quando vimos estávamos todos orando uns pelos outros. Quando saímos de lá Miguel veio falar comigo.
_ Líli. _ Ele veio correndo atrás de mim e isso me lembrou o dia em que nos conhecemos.
_ Oi Miguel. _ Eu disse rindo da lembrança.
_ Como você está? Eu sinto tanto a sua falta. _ Ele disse me abraçando.
_ Estou bem. Depois de hoje sinto como se minhas forças estivessem renovadas. E eu preciso te contar uma coisa.
_ Diga. Aconteceu alguma coisa? _ Ele estava preocupado.
_ Na verdade eu meio que fugi no dia do vestibular, eu fiz o teste escondida do meu pai. Eu sei que não deveria fazer nada escondido, mas é que ele não iria deixar e eu corria o risco de ser presa no quarto de novo. _ Eu confessei o que havia feito a alguns dias.
_ Líli! _ Ele disse animado. _ Isso é maravilhoso. Você já sabe se passou?
_ Ainda não. E você?
_ Eles ainda não divulgaram e eu estou ficando louco pra saber.
_ Eu tenho certeza que você passou. Não se desespere.
_ Sabe eu tive uma idéia esses dias. Você não dançou no natal e nem chegou a usar o figurino né?
_ É...onde você quer chegar?
_ Será que você poderia dar uma escapada na semana que vem?
_ Para que? _ Eu não estava entendendo.
_ Quero que você vá a um lugar comigo.
_ E eu posso saber que lugar é esse?
_ Ééééé.... não. _ Ele disse
_ Por que? _ Eu perguntei.
_ Porque é uma surpresa. Se eu te contar estraga tudo.
_ Então ta, acho que posso ir sim.
_ Na sexta então?
_ Pode ser.
_ Ok. Não esquece do figurino.
_ Isso realmente é necessário?
_ É absolutamente necessário. Você verá o quanto.
_ Não preciso sair de casa com ele né? Meu pai vai desconfiar.
_ Não, você pode se trocar lá mesmo.
_ Então ok. _ Eu disse.
Ele me deu um beijo no rosto e ofereceu carona para a casa. Eu aceitei com a condição de que eles me deixassem uma rua antes de casa. Meu pai havia saído mas era melhor prevenir qualquer outro surto. Contei tudo para a minha mãe como eu sempre contava. Ela também estava curiosa. A semana se passou e o meu pai não melhorou nada. Parecia que estava cada vez mais irritado, por traz da fera que ele se tornava eu pude ver indícios de culpa. Eu tinha tanta saudade dele, de brincar e conversar. Aquele que um dia foi meu herói agora se tornava o vilão da minha história. Os únicos momentos em que a tristeza não me dominava eram quando podia falar com meus amigos e com Deus. A sexta feira programada chegou e Miguel avisou que me pegaria as seis horas na esquina da minha casa. Eu peguei minha mochila, coloquei minha roupa dentro e avisei minha mãe que já estava saindo com ele. Fui para o lugar combinado e ele estava me esperando.
_ E aí? Já posso saber onde vamos? _ Eu entrei no carro.
_ Você verá. _ Ele disse olhando para estrada e depois dando um sorriso para mim.
_ Você não está me seqüestrando não é?
_ Talvez.
_ Eu vou ligar pro meu pai e ele vai vir te dar uma surra. _ Eu brinquei.
_ Ou será que ele iria prender nós dois? _ Ele disse.
_ Isso seria mais agradável que uma surra.
_ Seria sim. _ Ele concordou.
Ao rodarmos um pouco pela cidade chegamos a um prédio o qual parecia residencial. Ele entrou na garagem que ficava no subsolo. Ele deu a volta no carro, abriu a minha porta como um cavalheiro e pegou minha mão dando um beijo. Subimos as escadas que nos levavam até a recepção. Havia um rapaz escorado no balcão, o identifiquei como um dos rapazes da igreja.
_ Oi Pedro, podemos subir? _ Miguel perguntou a ele cumprimentando-o como se fossem amigos a tempos.
_ E aí! Podem subir. _ Pedro deu uma chave para o Miguel.
Nós fomos em direção ao elevador e eu fiquei com vergonha por ainda estarmos de mãos dadas. Soltei a mão quando entramos no elevador e ele olhou para mim parecendo se perguntar se tinha feito algo errado. Ele apertou o botão de décimo andar que era o último. Quando a porta abriu estávamos em um pequeno corredor com uma porta no fundo e a escada a direita. Andamos até a porta e ele girou a chave que Pedro deu a ele na fechadura.
_ Feche os olhos. _ Ele me disse.
_ Isso é mesmo necessário? _ Eu perguntei.
_ Por favor. _ Ele olhou com cara de cachorrinho abandonado. Impossível resistir.
_ Ok. _ Eu fechei meus olhos e deixei ele me guiar.
Caminhamos um pouco, subimos alguns degraus até que paramos.
_ Pode abrir agora. _ Ele falou.
_Tem certeza eu perguntei.
_ Sim.
Abri meus olhos e o lugar era realmente lindo. Em toda a cobertura do prédio havia um jardim com grama, arbustos, flores, um pequeno coreto no canto e bem no meio um grande palanque de madeira que tinha um degrau de altura, tudo iluminado por pequenas luzinhas que deixavam o por do sol mais lindo. Ao lado vi que estava o teclado do Miguel. Eu voltei a olhar para ele.
_ Mas para que tudo isso? _ Eu perguntei abismada.
_ Bom, é que você não pode fazer a apresentação de natal. Então eu pensei que eu tinha que fazer algo a respeito. Eu morei nesse prédio a algum tempo atrás, esse era o meu lugar preferido, eu vinha para cá tocar já que no apartamento eu não podia por causa dos visinhos que reclamavam do barulho. Aqui eu tinha liberdade para falar com Deus. Achei que...bom...você pode dar a ele um louvor verdadeiro se quiser, sem espectadores, só você, eu e os céus para assistir.
Eu fiquei olhando para ele. Meu Deus, esse garoto não existe. Pulei no pescoço dele e o abracei.
_ Obrigada...isso é...maravilhoso. Ninguém fez nada parecido por mim antes. _ Eu não podia expressar o quanto estava feliz.
_ Só queria ajudar o meu anjo a voar. _ Ele disse me abraçando mais forte._ Agora vai trocar de roupa antes que o sol vá embora.
_ Onde? _ Eu perguntei me afastando e olhando em volta.
_ Pode ser naquela porta. _ Ele me apontou uma porta que havia ao lado da que entramos.
Peguei minha mochila e entrei. O lugar era super limpo e organizado, parecia que guardavam materiais de jardinagem lá. Vesti minha roupa de bailarina que não tive oportunidade de estrear e prendi parte do cabelo deixando meio solto. Peguei minhas sapatilhas na mão lembrando do dia em que minha mãe me deu. Calcei-as e saí.
_ Como estou? _ Perguntei fazendo uma pose de dança para o Miguel que estava sentado atrás do teclado.
_ Linda. _ Ele respondeu _ O que você quer que eu toque?
_ O que você quiser. _ Eu corri para o meio do chão de madeira.
_ Então tudo bem. _ Ele começou a tocar, olhou para mim e acenou com a cabeça.
Eu dancei, finalmente. Como nunca havia dançado antes, tendo o céu inteiro com espectador. Me senti incrivelmente livre e sorria sem esforço nenhum. O mundo desapareceu éramos só eu e o meu Deus, eu dando o meu melhor e, pela alegria que minha alma sentia, ele recebendo. Não senti quando parei, apenas vi que o sol não estava mais lá e as estrelas começaram a aparecer. Deitei no chão sorrindo olhando para elas como se fossem um presente de Deus. Miguel deixou uma música clássica no teclado e deitou ao meu lado também olhando para o céu.
_ Como se sente? _ Ele me perguntou.
_ Muuuuito feliiiiz! _ eu gritei o mais forte que pude sorrindo para o céu. Ele pegou minha mão sorrindo e nós ficamos na mesma posição durante bastante tempo. Um trovão nos assustou, não percebemos as nuvens de tempestade se formando no horizonte.
_ Acho melhor irmos. Não quero ter que explicar para os seus pais por que você chegou molhada em casa. _ Ele brincou.
_ Tem certeza? Não podemos ficar aqui e deixar a chuva molhar tudo? _ Eu ri.
_ Eu também gostaria disso. _ Ele declarou continuando a olhar para o céu.
Outro trovão mais forte teimou que nós saíssemos dali.
_ Ok acho que não podemos ficar. _ Eu disse.
Ele se levantou me ajudando a levantar também, eu troquei de roupa correndo enquanto ele pegava o teclado. Corremos pelo corredor e entramos no elevador rindo. Descemos, nos despedimos de Pedro e Miguel devolveu a chave. Na volta para a casa o céu começou a ficar mais escuro e o vento estava forte. Ele estacionou um pouco antes da minha casa.
_ Obrigada. Obrigada mesmo. Foi muito lindo o que você fez por mim hoje Miguel. _ Eu agradeci de todo o coração ainda com um sorriso no rosto.
_ Eu precisava te ver um pouco mais feliz. Quando você fica mal eu também fico. Como se fosse comigo sabe. _ Ele falou.
_ Você é muito especial para mim. Não sei o que seria de mim aqui sem você.
_ Deus com certeza mandaria outra pessoa se não fosse eu.
_ Ou não. Talvez seja exatamente você que deveria estar aqui e ninguém mais.
_ Você acha?
_ Sim.
Ele ficou um tempo olhando para mim parecendo pensar no que eu tinha dito, então seus pensamentos e os meus foram interrompidos por mais um trovão dessa vez com um raio muito claro no horizonte a nossa frente. Ele chegou mais perto e me deu um beijo no rosto.
_ Talvez eu esteja aqui para te proteger. _ Ele falou me abraçando.
_ Eu acho que é isso mesmo. _ Eu falei me afastando e nossas testas acabaram ficando juntas.
_ Então eu tenho que cumprir o meu papel. _ Ele falou. _ É melhor você entrar se não vai se molhar e pegar uma gripe.
_ Ok. _ Eu disse pegando minha mochila e dando um beijo no rosto dele. _ Tchau meu anjinho protetor. _ Eu saí do carro e ele riu.
Entrei no portão correndo para fugir do vento e travei na porta. Abri uma fresta e vi que meus pais estavam ao lado da sala gritando alto. Eles não notaram que eu estava ali. As palavras estavam torcidas, eu tentei escutar e o que eu ouvi foi a voz da minha mãe dizendo “Porque você não se muda para a casa da outra então?”, a palavra “outra” me impactou de uma maneira muito forte mas não tanto quanto as palavras do meu pai, “Talvez seja isso mesmo que eu deva fazer.”. O que? Minha mãe disse que meu pai tem outra? Uma amante? E as palavras dele só comprovavam isso. A ferida maior da minha vida, dessa vez no corpo todo, estava lá agora me causando a maior dor que já senti. Como ele pôde? O que aconteceu com o pai que eu tinha? Eu precisava sumir. Precisava da única pessoa que me protegeria, ou que pelo menos estaria me ajudando a pedir a Deus que toda a dor fosse embora. Não percebi a mochila caindo na porta, nem que estava correndo na rua, nem as lágrimas que estavam rolando incansavelmente, nem a chuva e vento forte que me molhava e sacudia o meu cabelo. Também não percebi os faróis fortes vindo na minha direção na segunda rua que atravessei.


---*---


Minha cabeça doía e alguma coisa me avisava que o meu braço não estava legal. Fleches de luzes iam e vinham fazendo a minha cabeça doer mais ainda. Via rostos em minha volta em segundos que meus olhos ficavam abertos, minha mãe com a cara preocupada, dona Lúcia? Seu Paulo? Miguel! Queria acordar para falar com ele mas não conseguia. Parecia que haviam mil macacos pulando na minha cabeça. Pai? O que...? Espera...o que aconteceu? Mãe...pai...não. tudo estava se encaixando. Meus pais haviam discutido outra vez e ao lembrar o motivo a ferida abriu, como se eu já não estivesse com dor o suficiente. Alguém com uma máscara branca? Um médico? Onde eu estava afinal? Por que não consegui acordar? As perguntas giravam na minha cabeça fazendo-me debater. “Fique calma meu anjinho, vai ficar tudo bem” foram as palavras que ouvi elas me fizeram acalmar. Forcei meus olhos para abrir o máximo que pude. Miguel? Mãe? Não...não...n...droga! Meus olhos fecharam de novo. Decidi não lutar mais contra eles e obedecer a voz que ouvi. Meus olhos se abriram e não pareciam querer fechar exceto pela quantidade de luz no local.
_A... _ Abri a boca para tentar falar mas o som pareceu sair baixo demais e rouco.
Imediatamente alguém estava ao meu lado discando no celular.
_ Dona Ana? A Líli acabou de acordar... Ok. _ Miguel desligou o telefone e pegou minha mão. _ Como você se sente meu anjo?
_ E...eu não sei bem. _ Minha voz saiu como um sussurro rouco. _ O que aconteceu?
_ Você saiu com aquele temporal e parece que não viu um pequeno furgãozinho passando a cem por hora na rua. _ Ele brincou.
Eu comecei a me analisar e percebi que meu braço estava engessado e doendo, minha cabeça enfaixada. Levei a mão até a faixa e percebi a origem da dor. Talvez eu tivesse quebrado a cabeça. Senti como se tivesse um corte atrás.
_ Desculpa. _ Miguel me disse ao ver que eu não estava muito receptiva para brincadeiras.
_ Então eu fui atropelada? _ Estava com dificuldade em assimilar.
_ Sim. Só por Deus não aconteceu o pior. _ Ele afirmou.
_ Eu quebrei o braço?
_ Sim. Uma baita fratura.
_ E a cabeça?
_ Você teve um traumatismo. Nos deu um susto... _ Ele pareceu perdido em pensamentos e os olhos ficaram vermelhos. _ Eu achei que iria te perder. Acho que não tive fé o suficiente ao ver o seu estado.
_ Fiquei tão horrível assim? _ Tentei dar um soquinho com o braço bom nele. Saiu mais fraco do que pensei.
_ Você não faz idéia.
_ Quanto tempo eu estou dormindo?
No início ele hesitou em me contar mas meus olhos estavam curiosos demais.
_ Você ficou em coma por quatro dias.
_ Isso é mau. _Eu respondi _ Então estou aqui a quatro dias?
_ Na verdade...duas semanas.
_ O que? Como...? _ Eu tentei me sentar e a minha cabeça girou.
_ Calma linda, não levanta. Você ainda está muito fraca. Eles te mantiveram aqui porque o seu quadro era muito grave. Depois de quatro dias você acordou com muita dor, então te deram remédios para que você dormisse. A senhorita estava muito agitada, ia acabar abrindo os pontos da cabeça e da perna.
_ Da perna? _ Não tinha percebido que também estava doendo.
_ Você também conseguiu fazer um corte na canela. Foi bem profundo. Um caco de vidro.
_ Caco de vidro da onde?
_ O motorista do furgão tentou desviar e acabou batendo no poste. Como você já estava muito próxima te acertou mesmo assim.
_ E o motorista está bem?
_ Sim. Ele saiu sem nenhum arranhão. Você é que foi a azarada. _ Ele fez um carinho na minha bochecha sorrindo.
_ Eu acabei saindo toda quebrada. Quem me achou?
_ Bem, quando o furgão bateu fez um barulhão impossível de não ouvir da minha casa. Além de a luz estar piscando por causa do poste que balançou. Fomos ver o que tinha acontecido e... você estava lá, no chão, na chuva. O motorista tentando sair do carro, você estava sangrando muito... eu,... eu nunca vou esquecer da cena. Achei que o meu anjo tinha voltado para o céu.
_ Uau. _ Foi só o que consegui dizer. Era estranho ver alguém falando do que aconteceu sendo que eu não lembrava de nada.
_ E os meus p... pais?
_ Como já era de se esperar ficaram enlouquecidos. Nunca os vi naquele estado.
_ Onde eles estão?
_ Eles estavam aqui ainda apouco. Sua mãe estava muito cansada então eu disse para ela que passaria a noite com você para ela descansar. Ela não queria ir. Seu pai disse que a levava para casa e ela foi com ele.
_ Ela foi com ele?
_ Sim. Eles já devem estar chegando agora.
_ Hum. Você é muito fofo sabia.
_ É, acho que você bateu a cabeça forte mesmo. _ Ele disse fazendo um carinho de leve no meu cabelo.
Minha mãe entrou na sala apavorada.
_ Líli. Graças a Deus você acordou. _ Ela chegou devagarzinho e pegou a minha mão também.
_ Oi mãe.
_ Você quase nos matou de susto.
_ É, o Miguel contou.
_ Contou o que aconteceu? _ Ela perguntou para ele.
_ Sim. Contei sobre o acidente_ Ele respondeu.
_ O que aconteceu filha? Por que você saiu no meio daquele temporal.
_ Bem... eu... _ Estava vasculhando a minha mente arrebentada para lembrar dos detalhes. _ O Miguel me deixou em casa então eu entrei no portão. Quando abri a porta...vocês estavam discutindo...falaram algumas coisas sobre...sobre meu pai ter uma amante. _ Minha mãe ficou tensa e Miguel olhou para mim com os olhos arregalados.
_ Eu acho que é melhor eu ir lá fora. _ Miguel voltou a me olhar com expressão de que já tinha compreendido tudo o que aconteceu e saiu do quarto.
_ É verdade mãe?
_ Sim, é verdade. Mas não quero falar disso agora. Quando você sair daqui a gente conversa. Então você saiu para a rua e acabou sendo atropelada?
_ Sim. Eu devia estar correndo, eu acho.
_ Eu sinto muito por isso filha.
_ Ta tudo bem mãe. Não foi culpa sua.
Ela me abraçou e me deu um beijo.
_ Mãe?
_ Sim?
_ Cadê o pai?
_ Está lá embaixo. Não teve coragem de subir agora. Pediu um tempo.
Nessa hora os médicos entraram no quarto reclamando por não contarem que eu tinha acordado antes. Eles me analisaram e disseram que eu precisaria ficar alguns dias em observação até tirarem os pontos da minha cabeça. Perguntei se podia ir até o banheiro e eles disseram que eu poderia ficar muito tonta. Eu insisti e eles deixaram minha mãe me levar. Ao levantar minha cabeça girou bastante. Eu fiquei um pouco sentada para me acostumar e minha mãe me ajudou a levantar. Quando pisei pude sentir o corte na perna. Entrei no banheiro, passei por um espelho e voltei até ele.
_ Mãe! _ Eu exclamei. Meu rosto estava todo arranhado e meu lábio inferior com um pequeno corte. Meus olhos vermelhos, talvez pela pancada, e uma faixa enorme em volta da cabeça com o cabelo meio bagunçado.
_ Está tudo bem querida. Não se preocupe. Foram cortes superficiais. Já estão sarando. _ Minha mãe assegurou.
_ Que coisa! Eu to toda arrebentada. Será que eu vou ficar bem até meu aniversário. Será que eu ainda terei um aniversário? _ Eu olhei para ela meio tonta pelas palavras que saíram rápido demais.
_ Claro filha. Vamos ver como você está até lá.
Quando saímos do banheiro meu pai estava entrando no quarto. Eu levei um choque ao lembrar o que ele tinha feito. Minha cabeça girou mais forte agora e se não fosse minha mãe eu tinha caído no chão. Meu pai correu até nós e me pegou no colo para me colocar de volta na cama.
_ P...podemos...podemos conversar pai? _ Meu cérebro estava em uma montanha russa.
_ Agora não filha. Você tem que descansar. Ainda esta sob efeito dos remédios. _ Meu pai falou e eu fiquei feliz em ouvir a voz dele.
_ Você se agitou demais. Tem que dormir um pouco. _ Minha mãe disse.
_ Mas eu já dormi m... _ Não pude terminar a frase e desmaiei.
Pela manhã quando acordei Miguel me trouxe o café da manhã, Letícia e Júlia vieram me visitar e nós passamos o horário de visita conversando. Como não podiam entrar muitas pessoas juntas elas disseram que dona Lúcia e seu Pedro viriam me ver a tarde. Elas reclamaram que perderam o chofer já que o Miguel não saía mais do hospital desde o dia do acidente.
_ É verdade? _ Eu perguntei para ele.
_ Bem, sim...é que eu faço estagio aqui e aproveito pra ficar com você direto.
_ É, ele só vai para a casa para tomar banho. _ Letícia falou deixando ele vermelho.
_ É que eu prometi que cuidaria do meu anjo. _ Ele disse beijando a minha mão provocando risinhos e gritinhos nas meninas.
_ A propósito. _ Ele voltou a falar. _ Eu passei, vou para a faculdade no início de março, ganhei uma bolsa.
_ Miguel! Parabéns! Eu sabia que você conseguiria. _ Eu o abracei.
_ Tem outra coisa.
_ O que?
_ Enquanto você estava dormindo todo esse tempo eu olhei o resultado do seu teste. Você passou.
_ O que? Sério? Meu Deus! E agora? O que vou fazer? Meu pai?
_ Calma. _ Ele disse sorrindo. _ vai dar tudo certo. Agora para de fazer tantas perguntas. Você vai ficar tonta.
Os pais dos meus melhores amigos vieram me ver a tarde e me trouxeram uma cesta com biscoitos, sucos, doces e várias outras coisas. Meus pais estavam por lá o tempo todo dentro ou fora do quarto. As vezes eu me sentia muito cansada e meus olhos se fechavam involuntariamente enquanto conversava. Três dias depois eu finalmente tirei aquela faixa da cabeça e os pontos, até me senti estranha sem ela, teria que continuar mais um tempo com o braço engessado tudo indicava que eu passaria minha festa com o gesso. Os pontos da perna iam ficar ali por mais um tempinho, com certeza ia ficar uma bela cicatriz. O meu rosto estava realmente ficando melhor, agradeci por não ficar parecendo atacada pelo Fred Kruger ou pelo Edward Mãos de Tesoura. Voltei para a casa já no final de fevereiro. Subi as escadas devagar e entrei no meu quarto, estava feliz por estar ali, não agüentava mais ficar no hospital. Ao olhar em volta vi os indícios de que eu era bailarina e lembrei da proposta dos professores. Eu não ia poder trabalhar lá até me recuperar. Tinha que falar com eles. Deitei na cama e lembrei que teria que falar com meu pai também. Eu e ele estávamos fugindo disso a dias. Mais tarde quando estava na sala aproveitei que ele estava passando e o chamei. Ele veio até mim já esperando o que vinha pela frente.
_ Pai, acho que temos que conversar.
_ Sim. _ Ele sentou na minha frente.
_ Toda essa história de que você tem outra é verdade? _ Eu fui diretamente ao ponto sem fazer nenhuma curva.
Ele se espantou com o meu jeito. Ele não sabia que por dentro eu estava me despedaçando.
_ Bem, sim. _ Ele declarou parecendo derrotado e culpado. _Eu a conheci a algum tempo, não consigo mais conviver com sua mãe. Vou me mudar.
_ Pai. Isso é horrível. O que aconteceu com a nossa família? O Senhor...
_ Líli. _ Ele me interrompeu. _ Eu não sei o que houve. Só sei que não amo mais sua mãe. Não posso mais ficar nessa casa.
_ E a outra? Você ama?
Ele se surpreendeu com a minha pergunta.
_ Eu apenas quero sair daqui. Muitos casais se separam. Não vai ser ruim para ninguém...
_ Você realmente acha que será mais fácil pai? Acha que não será ruim para mim? Para o Guilherme? E para a mãe. Pai, você traiu ela.
Ele olhou para mim como se não tivesse visto as coisas por esse lado e ficou sem reação no inicio.
_ Seu irmão não liga mais para a gente. Ele não se importa. Parece que quer nos ver longe. Isso me deixa... deixa... louco. _ Eu vi pela expressão dele algo que eu não havia notado. Ele estava desesperado. Sentia falta do Guilherme. Eles eram muito unidos. Talvez isso seja uma das razões dos surtos dele.
_ E você? _ Ele voltou a falar. _ Como pode falar comigo dessa maneira depois de tudo o que eu te fiz? _ Ele estava com os olhos vermelhos.
_ Pai. Você é o meu pai. O mesmo que brincava comigo, que me contava histórias e que conversava quando eu precisava tagarelar. Apesar de... de não apoiar a religião, ou o Deus, que eu quero seguir, de não me deixar dançar de jeito nenhum e de me trancar. Eu te amo pai. _ Eu senti um quebrantamento dentro dele.
_ Eu também te amo filha. _ Ele estava contendo as lágrimas e eu o abracei. _ Mas eu tenho que ir. Me mudo essa semana mesmo.
_ Você sabe que isso não será o melhor. O senhor está tomando uma decisão que afetará toda a nossa família. Então espero que não se oponha a minha decisão de fazer faculdade de dança. Afinal isso será sobre o meu futuro e não afetará mais ninguém além de mim.
_ Faça o que quiser. _ Ele levantou como sinal de que estava lavando suas mãos.
_ Pai. _ Eu o chamei antes que ele passasse pela porta, ele olhou para mim.

_ O Guilherme te ama muito. Ele apenas também fez uma escolha para a vida dele. _ Eu tornei a falar. Meu pai assentiu e saiu.




Capítulo - 16
Novo emprego, faculdade e...que comecem a festa!


Na primeira semana de março estava super bem, exceto pelo meu braço que ainda estava engessado. O meu médico disse que só iria tira-lo na semana que vem mas que eu teria que continuar com uma tala até o inicio de abril, o motivo disso foi a minha quase fratura exposta a quase um mês. Eu comecei a faculdade normalmente e estava muito feliz. Comecei a dar aulas na CPL. No início só para uma turma. Os professores disseram que se eu quisesse podia começar mais tarde até que estivesse totalmente recuperada do braço. Eu não quis. Iria acabar voltando muito tarde e as crianças iriam ficar sem aula. E, bem, eu estava morrendo de vontade de começar. A festa estava se aproximando e a Júlia estava que nem louca de nervosa. Para minha surpresa meu irmão ligou avisando que viria. Ele não aceitou nenhum pouco a idéia de que nossos pais haviam se separado e mais ainda, que meu pai tinha outra mulher. Ele tinha se mudado a alguns dias. Minha mãe passou o dia todo fora de casa para não vê-lo indo embora. Miguel estava lá comigo. Meu pai colocou seu novo endereço na porta da geladeira, terminou de colocar as coisas no carro, voltou me deu um abraço, eu estava séria e tentando não demonstrar emoções. Ele entrou no carro e partiu. Eu desabei. Estava tudo perdido. Minha família estava acabada. Depois disso não sabia se tinha fé o suficiente para acreditar no contrário. Miguel sentou comigo no chão na entrada da casa, secou as minhas lágrimas e me abraçou dizendo para eu não desistir. Meu anjo, sempre estava lá comigo. Ele havia começado as aulas e estava fazendo estágio em outro hospital, feliz da vida. Letícia é uma figura, ela decidiu ficar um ano sem estudar porque ainda não tinha decidido o que fazer. Ela estava trabalhando na loja que a igreja tinha que vendia CDs, DVDs, livros, bíblias, etc. Júlia entrou no ensino médio e continuo dançando. Minha mãe estava... bem, não estava totalmente feliz, continuou indo a igreja comigo. Ela tentava não demonstrar na maioria do tempo, mas nós percebíamos que estava triste e magoada por dentro. Estava sempre com dona Lúcia, elas tinham se tornado muito amigas e eu sabia que minha mãe contava tudo o que sentia para ela. Meu pai não dava muitas notícias então um dia fui sozinha procurar a casa dele. Não com a intenção de entrar mas apenas deixar o meu convite na caixa do correio. Em baixo do convite eu escrevi “O Guilherme estará lá”. Peguei o papel com o endereço que ele deixou e vasculhei a cidade até que encontrei. Era uma casa com um muro muito alto, quase não se podia enxergar lá dentro. Suspirei e coloquei o convite na caixinha. Em casa estava falando com Júlia ao telefone, Letícia estava falando alto atrás, elas estavam discutindo porque tinham tido a mesma idéia de fantasia e nenhuma queria ceder. Meu Deus! A minha festa é a fantasia e eu não pensei nisso.

_ Júlia! Eu me esqueci completamente! Eu não tenho fantasia. E a festa é daqui a duas semanas. _ Eu disse apavorada.
_Nem precisa se preocupar amiga. _ Ela falou calmamente.
_ Como assim?
_Você vai ver. Tchau!
_ Mas... _Ela desligou e eu fiquei no vácuo como Letícia faz comigo de vez em quando.
_ Mas o que foi isso? _ Eu perguntei para mim mesma.
Não demorou muito para a minha campainha tocar. Eu desci para atender e eram Lucas e Renan sorrindo com uma caixa grande nas mãos.
_ Entrega especial! _ Eles falaram juntos me fazendo rir.
_ O que é isso? _ Eu perguntei pegando a caixa.
_ Um presente antecipado. _ Renan disse.
_ De uma pessoa que gosta muito de você e nos fez vir até aqui. _ Lucas acrescentou.
_ Obrigada! _ Eu estava maravilhada com a caixa brilhante. _ Vocês querem entrar?
_ Sim... _ Lucas foi entrando quando Renan deu um puxão nele.
_ Na verdade vamos te deixar aproveitar o presente. _ Renan disse arregalando o olho para o Lucas.
_A qual é cara. Eu estava curioso! _ Lucas disse enquanto os dois se dirigiam para o portão discutindo.
_ Tchau! _ Eu gritei e eles acenaram para mim.
Subi a escada correndo com um sorriso de orelha a orelha, coloquei a caixa na cama como se fosse quebrar. Abri o cartão que veio em cima e nele estava escrito.

Oi meu anjinho. Estava com as meninas escolhendo fantasias e vi esta. O presente de aniversário perfeito. A sua cara. Espero que você goste,
Beijos.
Seu anjo.

Abri a caixa com cuidado e me encantei com o que vi. Em cima aviam perfeitas asas de anjo com penas brancas. Coloquei-as em cima da cama e levantei o vestido que era branco sem mangas, com fitas douradas na cintura, a saia cheia de babados até um pouco a cima dos joelhos e pontinhas torcidas que tocavam os tornozelos. Lindo. Também veio uma grinalda dourada com florzinhas brancas como se fosse uma aureola e sapatilhas douradas. Peguei o telefone correndo e liguei para o Miguel.
_ Oi meu anjo! _ Ele atendeu e o meu coração derreteu com a doçura da voz dele.
_ Sabia que você simplesmente não existe!
_ O que? Aconteceu alguma coisa? _ Ele disse rindo como se não tivesse feito nada.
_ Você sabe do que estou falando. _ Eu falei.
_ Você gostou do presente? _ Ele perguntou finalmente se entregando.
_ Eu não gostei, eu amei muito, muito, muito mesmo Miguel!
_ Que bom porque se não iria te fazer usar do mesmo jeito. _ Ele disse rindo.
_ Mas eu gostei. Muito obrigada. E... você vai de que?
_ Ah... você verá.
_ Por que não vai me contar?
_ Por que não é grande coisa.
_ Então não é motivo para não me dizer.
_ Você é boa garota, mas eu não direi.
_ Tem certeza?
_ Absoluta!
_ Nem se eu implorar de joelhos.
_ Não faz isso comigo. E como vou saber se está realmente de joelhos?
_ Aaa... e você não confia em mim?
_ Confio. O problema é que o desespero nos leva a fazer loucuras. Ah fiquei sabendo que o pastor vai entrar na brincadeira e ir de Moisés. _ Nós ficamos rindo por bastante tempo.
As semanas passaram rapidamente até que o sábado chegou. Pela manhã ouvi da minha cama a campainha tocar e desci correndo antes que minha mãe chegasse na porta.
_ Guilherme! _ Eu exclamei ao ver meu irmão.
_ Líli! Que saudade! _ Ele disse me abraçando. Foi impossível não chorarmos na hora.
_ Mãe! _ Eu ouvi ele dizer.
Minha mãe estava atrás de nós com as mãos no rosto e os olhos cheios de lágrimas.
_ Filho! _ Eles deram um abraço que durou uma eternidade.
Nós entramos e conversamos por um tempão tomando café e comendo bolo. Guilherme contou tudo o que viveu nesses últimos meses e nós contamos todas as novidades e fatos trágicos que aconteceram aqui. Perguntamos sobre a Jéssica e ele apenas disse que ela estava bem. Contei a ele sobre a igreja e tudo o que eu fazia. Para a minha surpresa ele ficou feliz por mim e achou interessante que eu estava indo na igreja. Após o momento que conversamos começou a correria para a festa a noite. A Júlia me ligava o tempo todo e eu ligava o tempo todo para ela. Minha mãe, dona Lúcia e seu Paulo não queriam usar fantasias então concordaram em usar uma mascarazinha daquelas de segurar. Miguel havia trazido uma fantasia super legal de Zorro e eu estava curiosa em saber da fantasia do Miguel. Também queria saber se meu pai iria. Ele me ligou no dia certo do meu aniversário para me dar os parabéns mas não me falou se ia ou não. A tarde passou mais rápido do que eu esperava. Corremos para nos arrumarmos. Eu me maquiei não exageradamente, mais em tons de cor de rosa, fiz cachos no cabelo deixando-os soltos com a grinalda na cabeça. Coloquei o vestido, incrível como ele ficou perfeito em mim, esperei para por as asas antes de entrar no salão porque ela ficava presa onde eu passava. A única coisa que estragava ou talvez complementava a fantasia era a tala do meu braço. Combinei com a Júlia que iríamos chegar Juntas então ficamos aguardando no carro até o pessoal entrar. Minha mãe e meu irmão me desejaram boa sorte e entraram. Quando saí finalmente vi a fantasia da Júlia. Era de bailarina, toda cor de rosa e brilhosa.
_ Foi por essa que você e Letícia estavam brigando? _ Eu perguntei.
_ Na verdade não. _ Ela respondeu. _ Estávamos brigando pela de pirata. Fizemos um acordo e nenhuma das duas irá usá-la.
_ E ela vem de que? _ Eu perguntei.
_ Boba da corte. _ Júlia me respondeu rindo. _ Ela combinou com o Renan e o Lucas. Afinal é o que eles são.
Nós rimos até que uma voz nos anunciou no microfone. Nós demos as mãos e desejamos boa sorte uma para a outra. Entramos de mãos dadas desfilando como se fossemos misses, todos começaram a rir, bater palmas e assobiar. Pude ver os rostos dos meus parentes que convidei, dos meus amigos, minha mãe, meu irmão e para a minha surpresa meu pai também estava lá abraçado com meu irmão. Ele não havia trazido a outra, pelo menos ele teve a decência. A decoração ficou muito legal, preto e rosa pink, com balões em formas de corações e estrelas e fitas prateadas. Abraçamos todos os nossos convidados, meu pai veio até mim e me abraçou de uma maneira que faziam anos que não fazia me fazendo ficar com os olhos vermelhos. O pastor realmente tinha ido de Moisés, estava muito engraçado, todas as vezes que ele queria passar apontava o cajado e os jovens de brincadeira se afastavam como se fosse o mar vermelho. Ele usou isso para chegar até nós. A festa começou super divertida, cantamos parabéns e a comida estava ótima. Miguel veio até mim, ele estava maravilhoso em uma fantasia de fantasma da opera, com um terno estilo antigo, uma capa preta grossa e uma mascara que mostrava apenas metade do rosto. Quase tive um ataque ao vê-lo. Ele me deu um abraço de urso.
_ Você está linda. Adorei a fantasia._ Ele falou.
_ Ganhei de um anjinho amigo meu. _ Eu brinquei. _ A sua também não está nada mal. Gostei muito.
Na hora chegou uma garota aparentando uns vinte e um anos, no máximo, linda de morrer em uma fantasia de pirata (a fantasia que as meninas queriam?), com uma saia de tule preta hiper curta, um decote enorme mostrando o que eu tinha de menos, um salto que me fazia uma formiga, cabelos pretos longos e lisos e olhos azuis. Ela pegou na mão do Miguel.
 _ E aí não vai me apresentar a outra aniversariante Mig? _ Ela deu um beijo no rosto dele.
O que? Quem era essa? Por que ela pegou na mão dele? Que intimidade era essa com o meu melhor amigo? Mig? Vai se catar com Mig! O meu sangue começou a ferver de raiva e o meu rosto começou a esquentar.
_ Err... Líli, essa é minha prima Kelly. Ela veio do Paraná para a festa. _ Ele falou.
_ Oi amor, feliz aniversário. _ Ela me abraçou.
Amor? Eu não dei intimidade para ela me chamar de amor. Que droga o perfume dela era bom.
_ O...obrigada. _ Eu disse apenas.
_ Mig e eu namoramos a algum tempo atrás, né Mig? _ O queee? Ele namorou a própria prima? E por que caramba ela estava me dando essa informação? Talvez ela não tivesse aceitado muito bem a separação.
Ela ficava agarrando ele e eu estava a ponto de pular nela.
_ Bem,... ã... somos primos de terceiro grau. E isso faz muito tempo, éramos praticamente crianças. _ Miguel meio que se defendeu.
_ Ah! Você não beijava como criança! _ Ela falou dando um cutucão nele.
Que garota doida! Ridícula! O que ela estava pensando expondo-o desse jeito? O Miguel ficou de um vermelho que eu nunca vi e o suor começou a escorrer pela testa.
_ É... ã... eu... _ Miguel começou a gaguejar e eu olhei para ele incrédula.
_ Bem Líli, nós vamos continuar cumprimentando os nossos parentes. Até! _Ela puxou o Miguel pelo braço e ele me olhou com um olhar de “socorro”.
Eu cai sentada na cadeira. Sem acreditar no que tinha acabado de acontecer. Eu o vi sentar com ela em uma das mesas com várias pessoas que pareciam parentes.  
_ Não liga Líli. A Kelly não regula bem da cabeça. _ Letícia sentou ao um lado pegando um docinho do meu prato.
Eu olhei para ela, levantei e saí.
_ Líli... _ Ela veio atrás de mim.
_ Por favor, Léti. Eu só quero ficar sozinha um pouco.
Ela ficou para trás com cara de preocupada enquanto eu saía do salão. Olhei para mim com a minha fantasia que agora parecia bobinha. Eu tirei as asas e joguei-as no chão. Como eu poderia competir com ela? É claro que ela era mil vezes mais bonita que eu. Comecei a lembrar da maneira com que ela o abraçava e senti que as minhas lágrimas teimosas estavam lá de novo. Como eu poderia imaginar que ele queria algo além da minha amizade? Me senti totalmente idiota e perdida caminhando no jardim, estava mais frio do que eu pensava. Ao imaginar que eles haviam namorado antes e que agora ela não desgrudava dele me senti um pedaço de trapo enquanto ela um tecido caro indiano. Não podia nem sequer pensar nele a beijando. Era demais para mim. As lágrimas se tornaram mais intensas até que meu choro ficou audível.
_ Líli... _ Ouvi alguém correndo atrás de mim. Miguel.
O que eu faço? O que eu faço? Ele não pode me ver chorando. Vai me achar uma idiota.
_ O que? _ Eu disse rispidamente tentando afastar os vestígios do choro. Não podia olhar para ele, ele iria perceber. E eu também estava com muito ciúme para olhar.
_ Por que você está fugindo? _ Ele perguntou e eu percebi que estava quase correndo. Não diminuí o passo.
_ Por que você não volta com a sua prima? Ela deve ser uma companhia muito melhor. _ Eu disse revelando o meu tom de choro sem olhar para trás e sem acreditar no que tinha dito.
_ Líli, a gente pode conversar, por favor? _ Ele perguntou ainda me seguindo.
_ Conversar sobre o que? Sobre os beijos da sua prima oferecida? _ Meu Deus! Eu não disse isso! Eu não disse! Eu acho disse sim. Eu apertei mais ainda o passo tentando fugir da besteira que tinha dito.
_ Líli! Por favor! Se você não parar eu vou continuar correndo.
_ Por que? _ Eu disse quase gritando.
_ Liliana Gonçalves se você não parar eu mesmo paro você! _ Ele disse ameaçando e pude ouvir seus passos parando.
Eu parei onde estava e virei o encarando. Ele estava com as minhas asas na mão.
_ Eu te amo sua garota bobona e teimosa! _ Ele disse vindo em minha direção com um sorriso que se eu não estivesse com as pernas tão bambas tinha me feito correr para ele.
_ O... o que? _ Eu estava sem saber o que pensar. Minha cabeça girando pelas palavras que acabara de ouvir. Será que eu imaginei isso? Ele disse realmente que me ama? Eu só posso estar sonhando.
_ Eu te amo. _ Ele repetiu quando chegou perto de mim e enxugou as lágrimas que ainda escorriam. _ Como você pode pensar que eu queria algo com aquela garota? Você não percebeu que eu te amo?
_ Mas... você nunca me disse nada. _ Eu estava confusa e ao mesmo tempo quase desmaiando de tão forte que o meu coração estava batendo.
_ Não disse porque achei que não era a hora. Você realmente não percebeu? Líli, eu te amo tanto, de uma maneira que eu nunca imaginei que amaria alguém. _ Ele me disse ainda sorrindo.
_ Você me faz sorrir, me faz querer sofrer com você, me faz querer te proteger. _ Ele voltou a dizer segurando o meu rosto com as mãos.
_ E... eu... não sei o que dizer. _ Eu estava sem ação. Eu o amava também, mais do que ele podia imaginar.
_ Apenas diga que também me ama. _ Ele disse chegando mais perto, muito perto, e me olhando nos olhos. Ahhhh! Meu Deus!
_ E como você sabe que eu te amo? _ Eu disse brincando para provocar.
_ Ah, é que você disfarça tão bem! _ Ele retornou a brincadeira me abraçando.
Eu descansei a minha cabeça no peito dele e me senti muito melhor agora.
_ Eu te amo. _ Enfim eu consegui dizer. _ Muito.
_ Eu não falei? _ Ele disse rindo.
_ E o que a gente faz a respeito? _ Eu perguntei.
_ Bem... _ Ele se afastou me olhando nos olhos novamente e tirando o cabelo do meu rosto _ Líli, minha melhor amiga, meu anjo, meu amor. Namora comigo?
Ahhhhhh! Alguém me segura! Ninguém segurou. Eu voei no pescoço dele sem pensar.
_ Siiiiim! Siim! Sim! Mil vezes sim! _ Eu disse e ele não conteve a gargalhada.
_ Então é oficial? _ Ele perguntou. _ Tenho que pedir para o seu pai. _ Ele fez uma careta._ Será que ele vai me colocar para fora a ponta pés? _ Ele riu.
_Meu pai está um pouco mais tranqüilo depois do meu atropelamento. _ Eu ri.
Ele olhou para mim mais sério, como se um filme estivesse passando diante dele.
_ Você ficou mesmo abalado com o que aconteceu não é?
_ Sim. Te ver daquele jeito no chão não foi nada fácil.
Ele continuou me olhando com os braços em minha volta.
_ Mas está tudo bem agora. _ Eu disse com a mão boa ao lado do rosto dele.
Ele continuou me olhando. Seu olhos percorreram meu rosto e eu gostaria de saber o que ele estava pensando. Ele encostou a testa na minha e ficou ali por um tempo.
_ Será que eu posso? _ Ele finalmente perguntou.
_ Pode o que?
_ Beijar minha namorada. _ Ele sorriu.
Jesus! Ele vai me beijar! O que eu digo? O que eu faço? Meu coração estava saindo pela boca como se eu tivesse corrido uma maratona e as minhas pernas enfraqueceram. Se não fosse ele me segurando tinha ido direto para o chão.
_ E... eu acho que sim. _ Foi o que saiu na hora.
_ Você acha? _ Ele perguntou novamente.
_ É. _ Eu respondi.
_ Eu preciso que tenha certeza. _ Ele ameaçou se afastar.
Eu puxei ele de volta e o abracei olhando-o nos olhos.
_ Eu tenho certeza. _ Eu falei sem pensar em qualquer outra coisa. Não queria nada além daquilo no momento.
Ele sorriu e chegou mais perto encostando seu nariz no meu.
_ Absoluta? _ Ele perguntou com os olhos fechados.
_ Absoluta! _ Eu respondi fechando-os também até que seus lábios lentamente encostaram nos meus e eu pude ficar incrivelmente mais calma.
Carambola! Eu estava ali finalmente com o meu anjo, e ele me amava, como eu o amava. Nada de mau importava. Nem a briga constante em casa, nem o meu braço com a tala e muito menos a prima bonitona dele. Eu queria apenas ficar ali sentindo o beijo mais doce que alguém poderia dar até que ele se afastou rápido demais para mim. Anunciaram no salão que as aniversariantes iriam cortar o bolo.
_ Acho que uma das aniversariantes precisa voltar para a festa. _ Ele disse sorrindo ainda com o nariz encostando no meu fazendo cócegas.
_ Uma não é o suficiente? _ Eu perguntei beijando-o novamente.
_ Você não pode perder nada disso. _Ele disse me puxando pela mão e me dando as asas.
Nós corríamos pelo jardim de mãos dadas, foi aí que eu percebi o quanto o lugar era grande e como tínhamos nos afastado. Fiquei imaginando que a imagem deveria ser muito bonita. Nós dois correndo a noite no jardim iluminado cheio de flores, meu vestido esvoaçando para trás com a velocidade. Queria ver de fora e passar a cena em câmera lenta. Nós paramos na porta para ajeitar minhas asas e entramos. Júlia veio correndo me buscar e Miguel me deu um beijo no rosto. Fomos até o bolo cada uma com uma espátula para cortar. O meu primeiro pedaço foi para minha mãe, ela o merecia mais do que qualquer outra pessoa ali. Júlia igualmente deu a primeira fatia para dona Lúcia. Em questão de minutos todos estavam em cima da gente querendo bolo. Nós escapamos de fininho e eu fui até Miguel lhe dando um pedaço de bolo.
_ Obrigado! _ Ele me disse fazendo uma reverencia.
_ De nada. _ Eu respondi fazendo o mesmo.
_ É... qual será a melhor ora para eu falar com o seu pai? Eu estava pensando que se eu falar agora ele não vai querer me matar com tantas testemunhas olhando. _ Ele brincou.
_ Boa idéia. _ Eu falei.
Fomos até onde meus pais estavam sentados super afastados, cada um conversando com um parente.
_ Pai, Mãe. Será que poderíamos falar com vocês?
Os parentes se levantaram e nós nos sentamos. Minha mãe estava com cara de que já sabia de tudo. Uma ruga se formou na testa do meu pai me fazendo ficar preocupada.
_ Falem. _ Meu pai disse chegando mais para a frente. Minha mãe fez o mesmo.
_Bom, senhor. _ Miguel começou. _ Eu gostaria que vocês soubessem que eu amo muito a sua filha. _ Ele foi direto ao ponto totalmente confiante e calmo. _ Desde que eu a vi senti algo diferente. Ela tem sido minha melhor amiga, minha confidente e eu nunca senti nada parecido por ninguém. Eu queria, com a permissão de vocês, namorar com a Líli. Ela é a pessoa mais importante para mim. Quero uma chance de faze-la feliz quando as coisas são tão conturbadas. Vou entender se não concordarem mas independente da decisão que tomarem não vou deixar de amá-la. Assim como ela, eu acredito. _ Ele olhou para mim com aquele sorriso que me fazia desmanchar. Meu pai olhou para nós dois com os olhos arregalados.
_ Mãe eu sei que a senhora não se opõe. Não é? _ Eu perguntei.
_ Você sabe que eu quero muito que vocês fiquem juntos. Tenho esperado isso por muito tempo. Já estava me cansando, nenhum dos dois tinha a iniciativa. _ Minha mãe soltou essa nos fazendo rir e meu pai olhou para ela incrédulo.
_ Pai? _ Eu perguntei e a ruga na sua testa voltou.
_ Eu amo muito o Miguel pai. Por favor. _ Eu implorei.
Ele fez uma careta e olhou para nós.
_ Ta certo. Namorem então. O garoto parece de confiança. _ Ele disse friamente.
Eu não pude acreditar no que meus ouvidos haviam escutado. Meu pai permitiu que eu e Miguel ficássemos juntos. Isso era um grande progresso. Ele estava amolecendo com certeza.
_ Mas uma pisada na bola e você já era rapaz. _ Ele tornou a falar e Miguel ficou tenso de repente.
_ O senhor não vai se arrepender da decisão. _ Miguel apertou a mão do meu pai e deu um abraço na minha mãe.
Eu dei um beijo nos dois e puxei o Miguel para o meio do salão. Meu irmão estava lá conversando com a Júlia e a Letícia.
_ Guilherme, você já conheceu minhas melhores amigas?
_ Perguntei a ele.
_ Sim, elas são divertidas. _ Ele riu.
_ Miguel esse é o meu irmão Guilherme. Guilherme esse é o Miguel meu... _ Olhei para as meninas e finalmente eu iria dizer o que elas tanto queriam ouvir. _ Meu namorado.
Tivemos que tampar os ouvidos de tanto que elas gritavam. Os dois se cumprimentaram, pareciam gostar da cara um do outro.
_ Você não falou nada sobre namorado mocinha. _ Guilherme me falou.
_ É que foi super de repente. _ Eu confessei.
Os dois começaram a conversar e eu fiquei olhando para eles distraída em como se deram bem. Não prestei atenção na conversa deles muito menos nas meninas subindo no palco.
_ Senhores! Queremos informar que a aniversariante anjo está namorando com o fantasma da ópera! _ Letícia falou no microfone. Todos começaram rir e a bater palmas e nós não sabíamos onde enfiar a cara.
_ Ela vai ter que pagar por isso mais tarde. _ Miguel falou para mim.
_ Daremos um jeito nela. _ Eu concordei.
Guilherme parecia estar se divertindo muito com a situação. Para a nossa surpresa Renan subiu no palco, pegou o microfone da mão dela e se ajoelhou.
_ Letícia! Eu te amo! Seja minha namorada! _ Ele pediu e todos começaram a gritar.
_ Você ta louco garoto! Eu ein! _ Ela esnobou ele causando risos e gargalhadas.
_ O que foi isso? _ Eu perguntei.
_ Parece que alguém esta apaixonado pela minha irmã!... Nossa! É assim que você se sente? _ Miguel perguntou para o Guilherme.
_ É estranho não é? _ Guilherme respondeu com outra pergunta e eu fiquei boiando.
Letícia desceu do palco e o Renan atrás dela pedindo uma chance pelo menos para conversar. Me deu até pena dele. Apesar de engraçado ele parecia estar sendo sincero, e Letícia não acreditava.
_ Muito bem! Aproveitando essa, aqui vai uma para todos os apaixonados! _ O Matheus que acabou se tornando DJ da festa colocou uma musica romântica cantada por alguma cantora evangélica. Nossa a melodia era linda assim como a letra. Comecei a me mover involuntariamente como se estivesse dançando valsa.
_ Me concede essa dança? _ Miguel fez uma reverencia pegando minha mão e beijando-a.
_ Com muito prazer senhor. _ Eu retornei a reverencia.
Nós começamos a dançar e a girar pela pista. Uau! Ele dançava bem.
_ Hei! Onde você aprendeu a dançar assim? _ Eu perguntei.
_ Bem, se eu contar você vai ficar triste.
_ Eu quero saber mesmo assim.
_ Aquela minha prima, _ Ele apontou para Kelly que estava emburrada sentada olhando para a pista. _ Quando ela fez quinze anos contratou um professor para dar aulas para o bolo vivo dela.
_ Hum. Ainda não entendo o que você viu nela.
_ Foi um momento de rebeldia na minha vida eu acho. _ Ele declarou.
_ Você teve um momento de rebeldia? Achei que você sempre foi santinho. _ Eu ri.
_ Na verdade eu tive um período na adolescência. Tinha uns quinze anos. E ela uns dezessete.
_ Que pedófila! _ Eu falei sem pensar.
_ Hei! Eu era um garoto grande. Parecia mais velho do que minha idade na época. Mas... você tem certeza que quer falar sobre isso?
_ Não! Não quero! Quero aproveitar o momento. _ Eu disse beijando-o no rosto.
Quando olhamos em volta percebemos que vários casais estavam dançando também. Para a nossa surpresa Renan tinha convencido Letícia de dançar com ele. Ele não parava de falar. Olhei para ela e vi que ela estava tentando conter um sorriso.
_ Sabe, eles até que formam um casal super fofo. _ Eu comentei.
Miguel olhou e teve que concordar.
_ Olha como ela se faz de difícil. Mas acho que ela está gostando da situação. _ Ele falou.
A música acabou e todos bateram palmas. A festa continuou animada, todos brincando e as fantasias eram uma mais engraçada que a outra, a maioria dos mais velhos não usou fantasia mas alguns como o pastor estavam super brincalhões. Seu Paulo e dona Lucia chegaram em nós e nos abraçaram.
_ Quer dizer que eu tenho uma nora! _ Dona Lucia falou.
_ Eu acho que sim. _ Eu respondi meio sem jeito por ela agora se minha sogra.
_ Pois fiquem sabendo que estamos muito felizes. _ Seu Paulo disse e eu fique muito feliz por isso.
A festa continuou animada. Meus pais estavam tentando se suportar. Eu estava tão feliz, confiando em Deus que tudo ia acabar bem. A música ficou mais agitada, uma mistura de musica gospel com todos os ritmos imagináveis. O Mateus estava ficando bom nisso. Abrimos uma roda enorme e cada um fazia uma dança meio que espontânea. Incrível como quase todos tinham talento para a dança, e quem não tinha improvisava bem. Uma hora eu estava muito cansada e eu acho que estava dando para notar.
_ Você quer sentar? _ Miguel me perguntou me puxando pela mão.
_ Sim, eu estou meio cansada.
Fomos até o canto do salão na entrada onde o barulho era menor. Sentamos e eu fiquei de costas para ele olhando para o pessoal. Meu irmão estava se divertindo muito mas eu notei que as vezes ele ficava meio estranho, como se tivesse algo preocupando-o. Mas todas as vezes que ele ficava meio que perdido em pensamentos os meninos e Letícia faziam alguma brincadeira e faziam ele rir. Miguel me deu um beijo no rosto e eu fechei os olhos.
_ É estranho não é? _ Ele me perguntou.
_ O que? _ Eu respondi com outra pergunta.
_ A algumas horas éramos apenas dois amigos, melhores amigos, sofrendo pelo que sentíamos um pelo outro. E agora... _ Ele me abraçou e entrelaçamos nossas mãos.
_ Você esta feliz? _ Eu perguntei.
_ Muito. _ Ele respondeu. _ Você é simplesmente tudo o que eu pedi para Deus.
_ E eu tive que vir do outro lado do Oceano Atlântico? Você é mesmo exigente não é? _ Eu falei e a risada dele fez cócegas no meu ouvido.
Ele deu um beijo no meu cabelo e nós ficamos ali parados. Não ouvíamos a musica alta, nem as conversas e risadas, apenas nossa respiração e os corações batendo descompassados. Éramos só ele, eu e... não!
_ E aí! Os pombinhos querem alguma coisa? Um docinho? Um refrigerante? Um lenço para enxugar as lágrimas de felicidade? _ Letícia deu um pulo atrás de nós.
_ Meu Jesus! Como você...de onde você veio Letícia? _ Miguel levou o maior susto.
De onde ela saiu afinal? Tinha que admitir que ela estava ficando expert em aparecer do nada. Talvez o governo a contratasse como espiã.
_ Nossa! Eu aqui dando o meu melhor e vocês me tratam assim? _ Ela disse sentando e pegado um brigadeiro do seu prato.
_ Mana. _ Miguel a chamou.
_ O que?
_ Vasa!
_ Tudo bem, estou sendo chata e vocês não me querem por perto. _ Ela levantou e saiu fazendo beicinho.
_ Léti! _ Eu chamei e ela virou para trás.
_ Nós te amamos! _ Dissemos juntos.
_ Eu sei que vocês não vivem sem mim. _ Ela piscou e saiu andando toda convencida.
_ Essa garota não toma jeito! _ Miguel ficou olhando para ela com cara de admiração.
_ Vocês dois são os que se dão melhor de todos os irmãos. _ Eu afirmei para ele.
_ Sim. Eu amo essa moleca. Quando eu estava doente só ela conseguia me alegrar. Ela costumava levar balas escondidas para mim quando eu estava no hospital. _ Ele disse rindo concentrado no nada como se estivesse revendo a cena. _ Ela usava um chapéu engraçado e um nariz de palhaço só para me fazer rir. Ela era tão pequena...
Eu abracei a sua cintura e ele me abraçou de volta.
_ Eu te amo. _ Eu disse.
_ Eu também te amo. _ Ele falou.
Algum tempo depois as pessoas começaram a se despedir e a festa foi chegando ao fim. Miguel pediu à minha mãe para me levar em casa e ela concordou. Fomos quase os últimos a sair da festa. Quando chegamos a minha casa Miguel me acompanhou até a porta.
_ Que noite não é? _ Eu falei.
_ Pois é, grandes acontecimentos. _ Miguel respondeu.
_ Foi tudo incrivelmente lindo. Meus pais até estavam se suportando.
_ Sim. Mas a melhor parte foi a que você disse que me ama.
_ Isso é verdade. _ Eu disse o abraçando.
_ Você estava tão linda toda brava por causa da minha prima. _ Ele riu
_ Não precisava lembrar dessa parte. _ Eu disse tentando me afastar mas ele me puxou para mais perto.
_ Você é única sabia? É o meu raio de sol pra trazer luz e calor para a minha vida. Tantas vezes eu pensei em desistir de encontrar alguém como eu sonhava...mas aí você apareceu. Meu anjinho. _ Ele disse me dando um beijo na ponta do nariz e depois no canto dos lábios.
_ Raio de sol... perfeito. _ Eu disse com os olhos fechados _ Meu raio de sol.
Eu deitei minha cabeça no seu peito e agradeci a Deus pelas enormes bênçãos que me deu antes de nos despedirmos.


Capítulo - 17
Eu e minha casa serviremos à Deus



Uma semana se passou após a festa. Miguel e eu estávamos felizes com nossos estudos, trabalho, namoro...exceto por minha mãe que sentia muito por meu pai não estar em casa. Guilherme decidiu ficar até o domingo seguinte, não tivemos coragem de visitar nosso pai, era estranho demais para nós. Ele alugou uma moto e passava o tempo todo rodando pela cidade, parecia que algo além do que eu sabia estava o preocupando. Uma noite voltei do cinema com Miguel, passei pelo antigo quarto do meu pai, que agora servia para hospedar Guilherme e o vi sentado na cama folhando a minha bíblia.
_ Guilherme? _ Eu disse entrando no quarto dando um susto nele sem querer.
_ O...oi Líli. Como foi o cinema? _ Ele me perguntou tentando esconder a bíblia tarde demais.
_ Foi divertido. O que você está fazendo? _ Eu perguntei.
_ Bem eu... eu... é que... ta, eu estava lendo a sua bíblia. _Ele puxou a bíblia de volta.
_ Hum...isso é muito legal. E você encontrou o que procurava?
_ Como sabe que eu estava procurando alguma coisa? _ Ele me perguntou confuso.
_ Bem, todos que lêem a bíblia procuram algo. Procuram as respostas certas quando ninguém consegue as responder com clareza.
_ Hum... eu estava realmente procurando. Será que você pode me explicar algumas coisas Líli?
_ Claro se eu souber as explicar. Eu não sou nenhuma expert na palavra, mas posso te responder o que souber. _ Eu estava feliz pela curiosidade dele.
_ Então ta. Bem, o que significa essa parte? _ Ele me mostrou com o dedo na bíblia a palavra que se encontrava em João 3:16. “ Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna.”
_ Nossa! Estou muito feliz que tenha escolhido essa de cara! _ Eu disse animada por saber a resposta e por saber onde o meu irmão chegaria se aceitasse.
_ Ta bom, manda aí. _ Ele disse virando mais para me ouvir.
_ Ok. Guilherme, Deus Criou todas as coisas inclusive o ser humano, você sabe disso não é?
_Sim, claro que sei.
_ Pois bem. O homem acabou sendo desobediente a Deus escolhendo o pecado que o afastava de Deus. Resolveu seguir com as próprias pernas como diz o Miguel. Ele não pensou que só seria feliz ao lado daquele que o criou e o dava tudo. O dava vida. Assim toda a raça humana estava condenada a morrer, não por que Deus é vingativo e cruel, mas porque o homem escolheu esse caminho. Escolheu viver como bem entendia, como achava que era melhor. Porém esse caminho leva a destruição. A morte.
_ Uau! Ta, e agora? Todos vamos morrer de um jeito ou de outro. _ Miguel falou.
_ Aconteceu algo maravilhoso depois disso Guilherme. Algo que deu vida eterna para aqueles que acreditam.
_O Que?
_ Deus mandou para a terra o seu único filho, Jesus, para que morresse pelos pecados de todas as pessoas que já pisaram na terra e as que ainda vão pisar. Ele sofreu a dor de todos. Todos mesmo. E é aí que entra essa parte que você me apontou. Quem acredita que Jesus é o filho de Deus e o único que pode trazer salvação para a sua alma viverá para sempre com ele.
_ Ta. Você esta dizendo que todos que acreditam vão viver. Mas por que todos morrem? _ Eu comecei a rir pelo que ele tinha dito.
_ Guilherme, todos morrem sim. Na verdade para nós todos morrem porque não os vemos mais. Mas o que morre realmente, é esse corpo aqui. _ Eu disse cutucando a barriga dele. _ Aqueles que aceitam a verdade vão ter um corpo totalmente renovado depois que Jesus voltar.
_ O que? Como assim “Jesus voltar”?
_ Jesus morreu na cruz por nós mas ressuscitou no terceiro dia. Ele foi com Deus para preparar um lar totalmente diferente e lindo para aqueles que o aceitaram e terão a vida eterna. E ele prometeu que vai voltar e levar todos que forem fiéis a ele. Que acreditaram na sua palavra e que a salvação só vem dele. Quando ele voltar, todos que aceitarem a ele irão desaparecer da terra, como passe de mágica. Muitos irão pensar que foram extra terrestres, o fim do mundo, coisas do tipo. Mas na verdade aqueles que sumiram estarão em um novo lar totalmente felizes, sem lembrar das coisas da terra. Já os que morreram, haverá um período em que ressuscitarão e Deus irá julga-los.
_ Nossa! Isso tudo é verdade mesmo? _ Ele me perguntou espantado.
_ E alguma vez eu já menti para você maninho?
_ E aqueles que não aceitarem? _ Ele perguntou com uma voz baixa.
_ Esses sim irão morrer. Mas não é uma morte como imaginamos, morreu e acabou. É uma morte constante com dor e sofrimento.
_ E se Deus nos ama tanto assim, por que ele permite que isso aconteça? Todo esse sofrimento...
_ Guilherme, o que acontece é que Deus nos deu o livre arbítrio para escolhermos o caminho que queremos seguir. As pessoas morrem por não escolher o caminho de Deus. Imagina se Deus fosse um ditador que nos obrigasse a segui-lo se não morreríamos. Você não acha que isso é pior?
_ É... realmente. Isso não seria legal. E... Líli. Se por acaso, uma pessoa quer seguir a Deus e acreditar na verdade, o que ela tem que fazer? _ Ele disse coçando a cabeça, meio envergonhado.
 _ Você está falando sério? Você quer aceitar a Jesus? _ Eu perguntei maravilhada sem acreditar.
_Eu acho que sim. _ Ele disse com os olhos vermelhos e eu o abracei.
Naquela noite fugi para o quarto dele como fazia quando era criança e nós passamos horas conversando. Ele aceitou a Jesus. Disse que iria procurar uma igreja quando voltasse e que queria que Jéssica fosse com ele. Quando ele falava em Jéssica sentia uma emoção diferente nos seus olhos, não conseguia decifrar o que era.
Enfim chegou o domingo e meu irmão iria embora no inicio da tarde. Para a nossa surpresa meu pai chegou lá querendo nos ver. Disse que estava sentindo falta de Guilherme e eu, parecia meio desesperado. Miguel chegou para me ver e se despedir de Guilherme. Eles tinham ficado muito amigos nesses dias. Meu pai e meu irmão estavam dentro de casa conversando, minha mãe no jardim podando uns arbustos e eu estava sentada na varanda conversando com Miguel.
_ O Guilherme aceitou a Jesus essa semana. _ Eu disse a ele.
_ O que? Sério? Você falou de Jesus para ele?
_ Sim. Ele está totalmente convicto. Parece outra pessoa, mais maduro. Eu não sei o porquê.
_ Vai ver que ele só quer levar a vida mais a sério. _ Miguel disse beijando o meu cabelo.
Nessa hora meu irmão saiu pela porta da frente com a mochila nas costas e meu pai atrás.
_ Você não pode ir embora! Você tem que ficar! _ Meu pai gritava.
_ Tchau Líli! _ Guilherme disse me dando um abraço não dando bola para o meu pai que estava ficando histérico. _ Talvez eu venha no natal.
_ Tchau. _ Eu disse meio que sem reação Enquanto ele se despedia de Miguel.
_ Você não está me ouvindo? _ Meu pai continuava gritando.
_ Eu já ouvi o bastante pai._ Miguel falou apenas indo até minha mãe que estava parada com a tesoura de jardinagem na mão.
_ Você já vai filho? _ Minha mãe perguntou.
_ Já mãe, tenho que ir se não perco o vôo. _ Ele disse a abraçando, e o meu pai sempre atrás.
_ Então vá com Deus. _ Ela disse.
_ Como assim, vá com Deus? Ele vai é ficar! _ Meu pai teimava.
Miguel subiu na moto e foi até o portão. Eu e Miguel nos levantamos e seguimos todos que estavam indo na mesma direção. Meu pai saiu correndo e ficou na frente da moto. Minha mãe sem saber o que fazer na calçada e Miguel e eu indo para o lado dela.
_ Você NÃO VAI Guilherme! _ Meu pai segurou o guidão.
_ Pai eu PRECISO voltar! _ Guilherme enfatizou.
_ Você não precisa voltar! Sua casa tem que ser aqui agora! _ Meu pai soltou apontando para o chão.
_ Jéssica está grávida! _ Meu irmão declarou deixando todos sem reação.
O que? A Jéssica está grávida? Por isso que o Guilherme estava estranho. Por isso ele não quer ficar aqui. Agora ele ia ter a sua própria família. Meu irmão deu uma ré com a moto para sair da frente do meu pai que estava em choque, e arrancou sem dizer mais nada. Meu pai sem pensar e em uma velocidade enorme pegou uma pedra grande do chão e jogou-a na roda traseira tentando fazer com que meu irmão parasse. A moto derrapou tão rápido e violentamente que fez o capacete do Guilherme voar e ele foi ao chão batendo com a cabeça. Minha mãe deu um berro correndo em direção ao Guilherme que estava no chão imóvel. Meu pai ficou com os olhos arregalados e com as mãos na cabeça tremendo. O chão sumiu debaixo dos meus pés e Miguel me pegou antes que eu caísse.
_ Gui... Guilherme! _ Minha mãe se ajoelhou ao seu lado aos prantos sem saber o que fazer.
Alguns visinhos saíram para a rua e outros estavam ligando para a emergência. Meu pai sentou na calçada com os braços em volta dos joelhos e a cabeça entre as pernas balançando sem conseguir olhar para a cena. Eu corri até minha mãe e Miguel não pode me segurar. Ajoelhei ao lado da minha mãe chorando e Miguel estava atrás de mim. Guilherme parecia não estar respirando, não sabíamos se mexíamos com ele para tentar reanima-lo ou se isso só pioraria a situação.
_ DEEEUS! _ Minha mãe gritou apenas pegando a mão dele. _ Não leve o meu filho de mim.
Por dentro eu estava pedindo a Ele que salvasse o meu irmão. Não percebi quando os sons que pareciam apenas estar dentro de mim se puseram para fora. Miguel se ajoelhou também chorando e pedindo a Deus pela vida do meu irmão. Nada aconteceu. Sentimos alguém se ajoelhando no meio de nós. Meu pai pegou minha mão e da minha mãe e algo incrível aconteceu. Ele começou a pedir que Deus salvasse o meu irmão com o rosto no chão.
_ Jesus! Se você é real. Se tudo o que ouço é verdadeiro. Não deixe o meu filho morrer! Eu vou fazer o que você quiser. Eu vou ser uma pessoa melhor.
Nesse momento Guilherme deu um gemido e voltou a ficar imóvel, porém respirava desta vez. Olhamos uns para os outros maravilhados pelo sinal de Deus. Meu pai se jogou ao chão agradecendo a Ele e nós não sabíamos se riamos ou se chorávamos. A emergência chegou nos afastando mas não conseguíamos parar de dar glórias a Deus. Deviam achar que éramos loucos. Deram os primeiros socorros em meu irmão e meu pai e minha mãe entraram na ambulância com eles. Miguel e eu fomos atrás de carro preocupados mas sem parar de agradecer. Ao chegarmos no hospital depois que a ambulância já havia chegado pela rapidez. Ficamos horas esperando notícias, meus pais não puderam passar e ficaram conosco. Meu pai ficou mais ou menos duas horas inteiras de joelhos debruçado em uma das cadeiras. Ele andou até onde minha mãe estava sentada e se debruçou nos joelhos dela.
_ Por favor! Ana, eu sei que eu não mereço o seu perdão mas,... eu preciso que você me dê uma chance para mostrar que eu quero mudar. Por favor... me perdoa. Eu sei que tenho agido como um monstro. Eu não dei valor para o amor que você me deu. _ Ele implorou soluçando. _ Eu sinto tanto a falta das crianças. Sinto tanta falta sua.
Minha mãe olhou para mim surpresa engolindo seco e eu apenas sorri me abraçando em Miguel que estava com uma cara abestalhada.
_ Bem...eu acho... eu acho que você merece outra chance. _ Ela assentiu.
Meu pai se levantou a puxando e deu um abraço nela ainda soluçando de tanto chorar. Nunca vi ele chorando tanto.
_ Descobri que ainda te amo. _ Ele falou e uma grande lágrima escorreu dos olhos da minha mãe.
_ Eu também te amo. _ Ela disse de olhos fechados e eu comecei a chorar aninhada em Miguel que estava me confortando.
Um médico com um guarda-pó e calças azuis e uma touca colorida entrou na sala trazendo mais tensão junto com ele.
_ Vocês são a família do Guilherme não é?
_ Sim, somos. _ Minha mãe respondeu. _ Como ele está? Nós podemos vê-lo?
_ Bem, ele teve um traumatismo craniano devido a pancada. Nós controlamos a hemorragia interna que estava nos preocupando. Fizemos uma cirurgia e o colocamos no coma induzido. Só teremos noção dos danos causados quando ele acordar.
_ Danos? _ Meu pai perguntou tremendo.
_ Sim. Só por um milagre ele sairá sem nenhuma seqüela. No momento só uma pessoa pode vê-lo rápido, ele não poderá receber visitas.
_ Eu acho que você deve ir. _ Meu pai falou para minha mãe.
_ Ok. Posso ir agora doutor?
_ Sim, me acompanhe. _ Minha mãe foi com ele olhando para nós.
Nós três voltamos a sentar mais perto desta vez.
_ Líli. Você me perdoa? _ Meu pai me perguntou.
_ Claro pai! Como eu não vou te perdoar? Você é meu pai! _ Eu disse abraçando ele.
_ Obrigado filha. Eu quero muito fazer as coisas diferentes agora. Eu só espero que o Guilherme fique bem. _ Ele estava com uma culpa enorme.
_ Vai ficar tudo bem pai, confia em Deus.
Uma semana se passou. Meu pai voltou para a casa e estava tentando reconquistar minha mãe aos poucos. Meu irmão acordou. Fomos correndo para o Hospital e pudemos finalmente entrar no quarto para vê-lo. Ele estava com um curativo no lugar do impacto com o asfalto. Minha mãe estava segurando a mão dele. Meu pai entrou no quarto já chorando.
_ Oi filho. Como você está? _ Meu pai pegou na sua outra mão.
_ Não muito bem pai... minhas pernas...eu... não estou conseguindo mexe-las direito. Parece que perdi o controle delas. _ Meu irmão declarou com a voz baixa e rouca a sequela de que o médico havia falado.
_ O que? Não... eu..._ Meu pai começou a gaguejar pelo choque e pela culpa.
_ O senhor pode ficar calmo. _ O médico falou. _ Ele vai ficar melhor depois da fisioterapia. Quando ele já estiver em condições de se levantar e recuperado, vamos começar o tratamento.
Meu pai ainda não estava bem, ele estava se sentindo responsável por todo esse mal.
_ Me perdoa filho? Você me perdoa pelo que eu fiz? _ Meu pai estava com o rosto nas mãos do Guilherme.
_ Pai. Você percebeu o plano de Deus? Precisou tudo isso acontecer para que você enxergasse a verdade! Eu te perdôo sim, pelo fato de você ter se rendido. _ Meu irmão disse com os olhos fechados e um sorriso torto.
Eu fiquei maravilhada pelas palavras dele. Ele havia passado tanto tempo lendo a bíblia. Agora isso me confirmava que ele realmente queria seguir a Jesus. Três meses se passaram. Avisamos Jéssica na semana do acidente o que havia acontecendo e ela estava aflita querendo vê-lo mas não podia viajar. Guilherme estava se recuperando bem, estava fazendo as sessões de fisioterapia e estava quase caminhando normalmente. Meu pai e minha mãe estavam freqüentando a igreja comigo e a família do Miguel. Estava tudo finalmente se encaixando.





---*---



Bem, na verdade isso já fazem quatro anos. Agora eu posso finalmente dizer que eu e minha casa servimos a Deus. Depois que meu irmão se recuperou meu pai estava tão feliz que não tinha nenhuma objeção de ele partir. Depois de quatro meses de angustia da parte de Jéssica e Guilherme ele pôde voltar. Ela já estava com seis meses e o bebê era uma menina. Eles colocariam o nome de Nicole. Toda semana eles enviavam uma foto da barriga por e-mail, e quando minha sobrinhazinha nasceu a família estava emocionada. Minha mãe reclamando de brincadeira por ser muito nova para ser avó e meu pai dizendo que era parecida com ele. Meu irmão e Jéssica congregavam em uma igreja evangélica de lá e se casaram quando Nicole tinha um ano. Foi a única vez que pude pegar minha sobrinha no colo antes de...Bem, meu pais estão bem como nunca antes. Meu pai aceitou a Jesus e hoje quem incomoda para ir na igreja é ele, não gosta de chegar nunca atrasado e adora uma festa onde pode conversar com os irmãos da igreja. Minha mãe está radiante, até parece mais nova. As vezes pego meu pai olhando para ela com admiração. Ele fala que só poderia estar totalmente maluco quando a deixou e que ela é o maior tesouro que Deus o deu, ela fica toda boba. Júlia está estudando em uma grande academia de dança além da faculdade. Letícia, minha amiga eternamente doidinha está cursando direito, finalmente ela se decidiu. Ah! Ela e Renan estão namorando. Miguel, o meu amor, meu anjo, meu raio de sol, ainda está na universidade e trabalha no hospital. Eu, bem, terminei a faculdade. A Evelin Líder da dança na igreja foi fazer missões no Uruguai e me colocou no lugar dela. A CPL está crescendo e novas salas tiveram que ser construídas para abrigar estudantes que vinham de outros estados. Hoje o dia foi incrivelmente cheio para mim. Miguel e eu nos casamos. É, eu sei! Uau! A festa foi maravilhosa como eu sempre sonhei, nossos parentes e amigos reunidos. Meu irmão, Jéssica e Nicole também vieram. Eu não poderia estar mais feliz. Deus me trouxe tudo o que eu sempre quis, minha família estava totalmente restaurada e forte...
_ Amor? Você ainda não trocou de roupa? Vamos perder o vôo!
Ah! Miguel está vindo em minha direção me apressando. Não percebi que ainda estava vestida de noiva. Vamos passar a lua de mel em Portugal.
_ Meu anjo. _ Miguel me abraçou.
_ Meu raio de sol. _ Eu o beijei antes de correr para trocar de roupa.





Fim